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domingo, 2 de janeiro de 2011

Elementos de teurgia

Princípios elementares de teurgia

Os procedimentos teúrgicos têm relação direta com seu operador e seus orientadores espirituais. Todo o material usado deve estar em perfeita sintonia com as configurações astrais do operante. Desde uma referência geofísica como um ponto cardeal ao corpo energético do operante do processo. Com isto colocado entende-se que a magia trás consigo a ancestralidade do operante, e um bom mago é aquele que conhece muito bem seu passado eterno, ou pelo menos, seus piores erros neste campo, pois ninguém é mago pela primeira vez. Os magos correm os séculos e de encarnação e reencarnações surgem na terra, uns para fazerem o bem, outros se debandam pelos caminhos mais fáceis da goética. O primeiro passo para a arte da magia é o autoconhecimento. Tendo um guia de verdade, tendo o convite para a senda sem retorno dos magos; aquele que alguns escritores dizem que está em nossas mãos, em forma de rabiscos e signos cabalísticos, como triângulos, quadrados, estrelas, etc., e tendo, é claro, o reconhecimento de um centro com direito legítimo de trabalho, o iniciando deve partir para o autoconhecimento. A pergunta foi: O que é magia? O autoconhecimento sempre foi uma das mais poderosas magias e porta de entrada para as escolas e lojas de magia em todas as épocas. Desde Hermes Trimegistus, Pitágoras, Sócrates e outros, que o mago tem que passar pelo oráculo de Delfos: Quem sou eu? Jesus nos ensinou: Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. A verdade de quem fui e fiz e porque vim agora um mago. Porque preciso operar os processos espirituais em favor dos outros e muitas vezes ter que renunciar a mim mesmo por amor ao meu próximo. Existe o mago missionário. Aquele que veio multiplicar as células vivas do Astral plantadas no nosso orbe. Existe o mago que veio pagar alguma coisa ou muitas coisas. Este já foi um mago antes com toda certeza. E usou a magia para fazer sofrer as pessoas. O autoconhecimento é fundamental para o despertar de um novo mago em um centro de teurgia. O autoconhecimento vem com a vivência de centro, com o meditar sobre a vida e leituras específicas como livros escritos por outros magos, e com a comunhão com o guia, pois cabe a este iniciá-lo no mistério dos magos - O Mistério das Sete Espadas. Lembro-me que um dia eu estava em Poço Redondo Sergipe; eu era professor em um curso de extensão de uma Universidade. Eu tinha que me hospedar em uma pensão todo final de semana. Um dia percebi que havia algo errado em meu quarto. Senti que algo muito ruim havia ocorrido ali. E de fato. Um hospede havia falecido naquele quarto com sua amante. Na outra semana me colocaram em outro quarto. Por volta das duas da madrugada saí de meu corpo e vi que eu estava cercado por espíritos trevosos em forma de crianças. Todos usavam um tipo de arma que nunca entendi o que era aquilo. E eles vieram contra mim com muita fúria. Tentei voltar ao corpo para movê-lo, mas, nada feito. Eu estava cercado por uma legião de quiúmbas famintos para vampirizarem minhas energias. Quando eu achava que tudo estava perdido olhei para minha mão direita e vi um sabre com o cabo alaranjado e a lâmina super afiada. Com a espada na mão, gritei com voz forte e confiante: Ogum yê! Os quiúmbas desapareceram apavorados com o NOME. Desde então trago comigo este pequeno sabre. O sabre que Ogum me deu. E com ele só consigo fazer o que Ogum deseja, e dentro de meus limites e de Seus limites predeterminados para minha visita ao planeta terra. O autoconhecimento é muito importante. O mago deve descobrir que o é. Não é um mero achismo como dizer: “Eu acho que sou isso ou aquilo”. Este tipo de comportamento geralmente oculta a serpente do paraíso – a vaidade humana. Conheça-te a ti mesmo, foi o que Sócrates disse 300 anos antes de Cristo. As escolas iniciáticas exigiam certos conhecimentos, mas, o mais importante para o mago é: Sou um mago? Ou sou um curioso que gosta de fazer milongas? Se tu tens um guia de verdade ele te conduzirá ao autoconhecimento. Esta é uma das maiores magias de um umbandista. Nossos centros estão repletos de pessoas que não sabem o que estão fazendo na Umbanda. O continuum religioso, ou seja, a continuação na fé depende muito do autoconhecimento e do conhecimento das teorias elementares de nossa fé. Esta deve ser uma das razões de tantas ovelhas desgarradas do aprisco de Oxalá.


O que é goética?
O submundo da espiritualidade; o mundo trevoso do bruxedo é chamado de goética – a ativação das forças naturais com fins maléficos. Existem atualmente vários movimentos que se dizem “esotéricos”, mas que representam o passado negro em termos de magia. Não vou citar nomes aqui. Se você tiver um olhar bem observador verá com muita facilidade os adoradores de cemitérios e profanadores de lugares sagrados. Os bruxos estão em todo lugar. Recentemente em Aracaju um grupo de um movimento “X” que se intitulavam góticos (não me refiro aos que fazem do gótico um estilo de vida), profanou um cemitério da cidade, fazendo sexo sobre os túmulos e rituais de invocação de suas entidades. Resultado dois jovens do grupo foram internados com transtornos psíquicos graves. O ocorrido levantou para mim a questão das magias negras disfarçadas de brincadeiras de criança. Um jovem muito inteligente se envolveu com uma dessas escolas de magos, que, aliás, se multiplicam por toda a Aracaju. Fez um ritual na praia, vejam, logo na praia. Todo mago de Umbanda sabe que trabalhos na praia são de muito respeito e perícia por parte do operador. As forças da natureza que estão presentes na praia são poderosas. Acenderam as velas e o grupo operou o processo em nome de seus deuses. Conseqüência, uma das integrantes do grupo logo após a magia sentiu que estava em obsessão e tentou suicídio três vezes. Na mesma semana um dos integrantes do grupo morreu afogado no mesmo lugar. Outra jovem foi atropelada em uma encruzilhada um mês depois. E o operador, “o mago”, está com a vida arrasada até os dias atuais. Dizem que pirou da cabeça. Pai Joaquim diria: “Fio, magia só faz quem tem. Não se ativa força que não se tem em nós, é o primeiro passo”. Muitos de nossos irmãos no santo fazem as chamadas magia, ou, firmação de pé de trunqueira. Geralmente os objetivos são amarração, vingança, etc. as pessoas se acham no direito de solicitar logo a um guardião de Umbanda para fazer trabalhos escusos desrespeitando o livre arbítrio das pessoas e a Lei Maior: “Nenhuma magia pode ser ativada contra um ser humano”. Que direito eu tenho de fazer alguém gostar de mim pela força do magnetismo de uma magia. E a covardia de se vingar de alguém pedindo a um cobrador, logo a um cobrador para derrubar essa ou aquela pessoa? Isso é o mundo do bruxedo, da goética, do culto ao mal, e infelizmente está muito presente na vida dos que se dizem mago, e algumas vezes, magos de Umbanda. No início de meu ministério fiz muitas tolices; fui às encruzilhadas de asfalto, entrei em cemitérios sem o devido conhecimento, cobrei caro das pessoas por meus trabalhos. Até que um dia pela tarde eu estava lendo o livro dos médiuns, e ao meu lado apareceu o rosto bonito de uma senhora linda. Ela havia falecido há muito tempo atrás. E ela me disse: “Pare de fazer estas coisas, senão vais pagar muito caro!” eu sempre pedi aos guias para não ver os mortos. Não acreditei no que via e ouvia. Pedi a senhora para mover uma caixa de fósforos vazia. “Se você é você, mova esta caixa de fósforos!” A caixa de fósforos que estava sobre meu birô não saiu do lugar. “Tá vendo como não vi nada!” “Graças a Deus!” Pouco tempo depois o sono pegou e fui me deitar. Ao deitar em minha cama percebi que havia alguém em pé em minha cabeceira. Logo em seguida a cama foi jogada no ar por três vezes consecutivas. Eu peso muito mais que uma caixa de fósforos, meu peso era na época 98 quilos. Definitivamente, entendi que era um aviso do Astral para parar de criancice. O número 3 é uma mensagem para nós que gostamos de analisar os números sabemos muito bem o que ele quer dizer. O mundo da goética é brincadeira séria de alguns e meio de vida de outros. Conheci um homem que se dizia mago. Ele cobrava muito caro pelos seus serviços. O pobre tinha que andar com seguranças. Havia sofrido vários atentados de políticos como retaliação a seus serviços. Meu jovem mago, iniciado no Mistério das Sete Espadas: Aprenda que teurgia é uma ciência milenar, a ciência que é filosofia e religião, é uma síntese do conhecimento humano e está a serviço do Astral Superior, da Constelação dos Espíritos de Luz para o bem da humanidade. O mago de Umbanda trabalha para neutralizar, cancelar, desativar as obras do bruxedo e não o contrário. Pense e medite.
Saravá Senhor Ogum Sete Espadas.


Partindo do entendimento do que é magia, do que é um mago, do que é magia negra, podemos prosseguir para o entendimento do ato processual mágico. Toda magia é um ato ou uma sucessão deles. Às vezes é um ritual, portanto, conjuga uma variedade de ações ou atos mágicos. Assim como o mover do Espírito do Todo Poderoso se move nos quatros cantos do planeta para uma finalidade positiva na vida de um ser encarnado, os atos mágicos conjugados ou não devem servir para o mesmo fim. A magia alcança o norte, o sul, o leste e o oeste. Ato mágico é toda ação que envolve as forças da natureza em um processo mágico dentro de um espaço mágico. O ato mágico é uma ação física do homem sobre a matéria, portanto o ato mágico possui uma variável cultural. A magia tem formas diferentes em culturas diferentes. Por isso a magia de Umbanda possui uma diversidade cultural muito grande. As Umbandas são muitas; e cada uma possui processos mágicos peculiares que muito contam da história de sua região. O ato mágico pode ser individual ou em grupo. Pode ser ritualístico ou não. O ato mágico é uma ação da vontade humana sobre a matéria. Por isso o ato mágico exige concentração e ligação mento astral com um guia. A vontade do homem potencializa a ação de um guia sobre a matéria modificando-a. Quando a vontade é forte e insistente, o operante concede fluido ao guia do processo e esse manipula a matéria em comunhão com seu aparelho. O ato mágico nesta dimensão é uma co-ação. O guia e o mago unidos pelo magnetismo mento astral e fluido animal humano. O verdadeiro mago conhece a natureza insólita da matéria e sabe que esta se deforma sob a pressão de seus pensamentos. Temos então que o ato mágico é uma ação conjugada de dois espíritos. Um encarnado e o outro desencarnado ou encantado. O ato mágico só faz sentido se for realizado por um mago verdadeiro. Não tomemos o termo ato mágico como qualquer acontecimento milagroso. Podemos dizer que uma criança foi salva de um acidente como por ato mágico. Ato mágico neste livro é o procedimento de um médium mago operando uma magia de Umbanda. Acender uma vela é um ato mágico, por exemplo. O irmão Soares acendeu sua vela e fez sua prece a Xangô. Depois foi fazer seus afazeres. O mago acendeu sua vela a Xangô e no ato de acendê-la entrou em sintonia mento astral com seu guia e direcionou seu magnetismo pelo magnetismo presente naquele ato até um alvo certo e seu espírito logo, logo, percebe que algo foi ativado ou neutralizado na realidade, no mundo real. Para o mago não foi apenas um acender de uma vela que não deixa de ser sempre mágico. Mas isso se torna um ato mágico poderoso nas mãos de um verdadeiro mago de Umbanda. O ato verdadeiramente mágico exige um espaço mágico. E o que é espaço mágico?

O que é espaço mágico?
Espaço mágico é todo e qualquer espaço consagrado à operação de magia. Desde a antiga Suméria até os dias atuais os homens separam espaço na matéria para realizarem suas magias. Um exemplo claro de um espaço mágico é um templo. A arquitetura de muitas igrejas cristãs na Europa mostra a presença da religião dita pagã no cristianismo. Pois seus espaços mágicos trazem evidências da presença das religiões esotéricas, ou pagãs. Os antigos pitagóricos acreditavam que algumas formas geométricas eram sagradas porque representavam a divindade ou uma relação com a divindade. Essas formas eram usadas em magias para separarem espaços mágicos. O espaço mágico é o ambiente onde ocorre a magia e o ponto de força de onde suas energias são direcionadas. Os atos mágicos são operados em grande parte no espaço mágico. O espaço mágico de um médium mago de Umbanda tem muita coisa em comum com ele. Todo médium operador de magia deve conhecer sua posição na roda da magia. Qual é seu pólo de entrada e de saída de forças. Contudo minha vivência mostra que quando alguém é mago de verdade mesmo que ele desconheça estas coisas a magia se realizará com certeza. Mas isso não anula a necessidade do aprendizado do que já foi assentado para nós por nossos grandes mestres da magia. Muitas vezes em uma magia mais de um espaço pode ser aberto. Um médium de Ogum inicia seu trabalho acendendo uma vela para Ogum em um sinal de Pemba autorizado por Ogum para esse fim. Depois ele risca mais um riscado onde serão colocados os elementos movimentadores de energia. Temos então uma magia e dois espaços relacionados. Outros irmãos separam seus espaços mágicos usando apenas as velas. Outros usam panos para forro ou assento de oferendas. Esses espaços são espaços mágicos.
O círculo e o triângulo
Hoje eu tenho habilidade para riscar dezenas de sinais cabalísticos em meus trabalhos. Mas nada se compara a aqueles que você recebeu diretamente de seu guia. O círculo como meio de delimitar meu espaço mágico foi o primeiro riscado que me foi dado numa época em eu nem imaginava o que era lei de Pemba. Minha mãe de santo tinha uma necessidade muito grande de um médium que tivesse esse dom. Ela me passou a Pemba e olhou o que eu ia fazer com ela. O caboclo riscou seu ponto e depois um círculo e em torno dele pôs as velas. E ali iniciamos na magia. Vi problemas graves serem resolvidos dentro desse círculo mágico. Uma senhora teria suas pernas amputadas e ficou curada em alguns dias, outra tinha câncer na vagina e foi curada também. Se fossemos contar as benções recebidas seriamos tomados por arrogantes. Para os pequenos iniciantes na magia como nós, o círculo e o triângulo são sinais poderosos para delimitar um espaço mágico. Entenda; o mago nunca deve trabalhar o que não tem. Se você só tem um ponto riscado no chão, trabalhe com ele. E dele sairá o que você nem imagina. A magia de pontos riscados é tão antiga quanto a humanidade. Não é nada novo como tem sido dito por alguns. Não aconselho a cópia de pontos riscados de ninguém, mesmo sabendo que teu guia pode usar o que já foi posto. Mas neste caso ele vai te fazer ter certeza que isso é teu. O guia tem uma relação com os pontos que te são permitidos operar e eles chegam as tuas mãos de várias formas, na maioria delas em estado de incorporação. O círculo representa o todo. O universo, o Deus Uno. O triângulo representa a conjugação de energias e pólos magnéticos ativados para determinado fim. Assim como do círculo fluem energias que podem se irradiarem em várias direções, do triângulo nós podemos direcioná-la numa só direção específica. No quadrado eu posso recolher vibrações negativas e anulá-las pela fé em meu Orixá. Todos os Orixás podem operar num triângulo, num círculo ou num quadrado basta o médium magista ter o direito de riscá-los e crer que o fenômeno logo acontece. E quem não trabalha com a Pemba? Não é umbandista? Como foi posto acima ele têm outras formas de delimitar o seu espaço mágico. O que conta na verdade é a atitude mental do operador:
- Vontade forte;
- Ligação mento-astral com o guia;
- Concentração;
- Operar a magia de forma sempre ritualística: cantos, procedimentos, invocações, etc.
- Visar o bem de seu próximo.
- Guardar os resguardos pedidos no trabalho.
Com estas coisas em dia o mago logo percebe qual é sua vocação.
Salve o caboclo Tupynajé!

O mago e os Orixás

O mago irradia e recebe as irradiações dos Orixás. Ele é um magneto vivo. Os Orixás são peças fundamentais para o trabalho de um mago. Na magia de Umbanda, sem Orixá sem magia. Em outros sistemas a magia é operada por outras vias. Na nossa Umbanda o Orixá é tudo na magia. Um mago de Umbanda deve ter comunhão com o seu Orixá regente de trabalhos e a ele seguir. Um dia me deparei com uma situação muito complicada. Uma irmã de fé estava passando por um problema muito difícil. Uma entidade de esquerda disse a mesma que o problema só seria resolvido se ela desse a ele quatro bichos de quatro patas. Não me conformei com o fato. Nosso centro não trabalha com Menga (abate de animais). Meditei sobre o caso e invoquei Oxum e Oxumaré para o trabalho. O caboclo preparou uma porção mágica que deveria ser sempre renovada a cada lua crescente durante um tempo determinado, o trabalho de Oxum, que foi muito simples foi arriado na beira do Rio do camboatá. Três meses se passaram e o problema familiar estava totalmente resolvido. Hoje quando vejo o casal e o filho que tiveram logo depois da crise muito me alegra; este caso ficou conhecido para mim como: As flores de Oxum. Algumas pessoas copiam receitas de magia. Saiba que cada magia é única, e que só te serve a tua magia, pois ela está sempre vinculada ao teu Orixá. Com 16 anos eu vi Oxum na minha frente com as duas mãos me chamando para algo que eu nem imaginava que aconteceria. Aos 45 anos ouvi sua voz doce dizendo-me: Trabalhe para mim! Pouco tempo depois eu fui iniciado na Umbanda. Assim foi Oxum, assim foi Ogum e outros; cada um tem sua função e seu momento de atuar. Meu caro mago de Umbanda trabalhe com o seu Orixá. Os Orixás nunca agem isoladamente, uma magia nunca ativa um único Orixá.
Aqui está a lista dos Orixás cultuados em nossa Umbanda:
- Oxalá fazendo par com Oyá-tempo. (um tipo de Iansã)
- Oxum fazendo par com Oxumaré.
- Oxossi fazendo par com Obá.
- Xangô fazendo par com Iansã.
- Ogum fazendo par com Iansã.
- Obaluaiê fazendo par com Nanã.
- Iemanjá fazendo par com Omulu.
Estes pares formam as sete linhas de Umbanda para nós. E dentro das sete linhas o ternário de Umbanda se apresenta de forma bem nítida aos nossos olhos: Caboclos, preto-velhos e crianças. Esse é o princípio de toda a magia de Umbanda. Três forças conjugadas com o objetivo de realizar a felicidade humana na terra desenvolvendo o ser em todos os sentidos da vida. O mago de Umbanda deve estar ligado a, pelo menos um, desses Orixás. Sem Orixá, sem magia!

Qual é o seu Orixá de cabeça?
Já me deram tantos Orixás. Já me disseram que eu tinha de fazer isso e aquilo. Já vi tantas pessoas padecerem com feituras e feituras. Já vi tanta gente sofrer horrores porque andou batendo a cabeça em tanto roncó. Somente uma mão de Ifá com direito e autoridade pode dar um Orixá com 100% de credibilidade. Mas, pergunto eu, esse humilde servo de Oxum: Quantos centros têm essa tão falada mão de Ifá? Já vieram para mim tantos irmãos confusos porque os búzios disseram que eles eram isso e aquilo. Depois de um tempo descobriram que suas vidas estavam a beira do caos. Sabemos que o Mistério Orumilá é coisa séria, mas também sabemos que nem todo centro possui um sacerdote de Orumilá a sua disposição. Alguns dizem que podemos ver pela mão (quiromancia), outros pela data de nascimento e horário de nascimento. Meus caros quando foram feitos os primeiros mapas astrais as posições planetárias eram tão diferentes das de hoje. Sem jogar lama na astrologia, acredito em sua importância, mas duvido de sua exatidão para conferir um Orixá a alguém com 100% de certeza. A concepção de sistema solar mudou e muita coisa que vemos no céu é apenas marca do passado astrofísico do universo. Meu caro irmão: Quantas pessoas sabem o seu horário de nascimento? Posso dizer a vocês que uma ou duas souberam durante todo esse tempo que tenho atendido em um centro de Umbanda. E agora o centro deve ser fechado? Certo que não, pois tenho visto muita benção ser derramada pelos Orixás naquela humilde casa. Existe uma passagem na bíblia, o livro sagrado dos hebreus, que muito pode elucidar esse problema. “O espírito dos profetas estão sujeito aos profetas”. A nossa comunicação mento astral com os Orixás nos capacita a dizer com certeza o Orixá das pessoas. Nós somos os profetas, e os espíritos que atuam em nós nos passam informações preciosas para a edificação da Corrente Astral de Umbanda. Exceto o segredo de Orumilá, esta é a via mais confiável de se dizer um Orixá de alguém: O discernimento espiritual que advém de uma vida de comunhão com seu Orixá regente. Sem o discernimento, sem a vidência, nada feito. Você estará condenado a fazer contas e analisar mapas e mapas, e sempre haverá uma dúvida dentro de você. A numerologia também não garante e as contradições são várias. Estudando diversas cabalas percebi que existem variações entre elas, o que implica numa variação nos números conferidos aos Orixás. Já existem conflitos entre autores e cada um esbraveja que sua cabala é a certa. Vaidade!
Salve o Trono das Sete Encruzilhadas, salve Ifá!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Vidência

Os búzios rolam
meus olhos embassam.
O babá joga denovo;
tonteia, Oxalá, valei-me!
deu-se o consumado.
faíscas de luz
xeque-mate!
de sete cartas e dezeseis búzios.
rentes como faca de ponta amolada
certeiros como flechas;
se lançadas, nunca erram.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Aberta a Caça às Bruxas no estado de São Paulo.


É, meus caros amigos. Parece mais previsão, coisa feita. Há algum tempo, escrevi um texto aqui para expor o caso da sacerdotisa do candomblé, filha de Oxóssi que sofreu atentados de violência ao tentar realizar a feitura de um Ebó, em Ilhéus, na Bahia. E, tempo depois, em outro texto, tentei expor o emaranhado da rede que se formava nos cercando, e promovendo em pleno século XXI uma literal “caça às bruxas”, Pois bem, saibam, caros colegas do meu querido e amado povo-de-santo, que a caça às bruxas começou. E mais uma vez os “colonizadores cristãos”, vem disfarçados de defensores do interesse público, proibir o sacrifício de animais em ritos religiosos na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo. Se descumprida a lei, o Zelador ou quem quer que esteja realizando o corte terá de pagar uma multa em valor de 2.000 reais com direito a dobrar se ocorrer novamente a tentativa de sacrificio animal. Ou seja meus queridos amigos, os protestantes e conservadores dos partidos PT, PDT, PP, PPS, PTB,PR,  PMDB, PRB, PSDB, juntamente com o vereador Laércio Trevisan, do Partido Republicano (partido que deu candidatura ao humorista “tiririca”), declararam, indiretamente, com tal lei, aberta a “caça às bruxas” no município de piracicaba, alegando a proteção aos animais. Dentro da própria cidade de piracicaba, correm boatos de que o referido PL. é parte de um MOVIMENTO chamado "ALIANÇA PARA A SUPREMACIA CRISTÃ", que tem por objetivo levar este projeto a outras cidades do Estado de São Paulo, depois, independente de quem seja eleito, encaminhar para a Câmara dos Deputados, através de deputados federais dos partidos envolvidos. Estes deputados, no momento, são mantidos no anonimato. Vejam bem o grito dos eurocentristas meus caros irmãos. Estão começando a caçada em torno de nós. Eles entraram na raiz de nossa fé, e estão planejando cortá-la pela rais, pois sem Ebó, não há culto ao orixá. Sem sacrifíco não há candomblé. E, bem articulados politicamente como são, É POSSIVEL SIM QUE ESSA LEI ENTRE EM SANSÃO! E nós meus queridos, que ainda nem temos um representante aberto nas câmaras legislativas? O que será de nós, povo-de-santo se essa bem dita lei for difundida e sancionada brasil à fora? É preciso estar preparados meus colegas, pois os tempos escuros chegaram. Bem vindos meus irmãos à essa denominada “Caça às Bruxas.”

Link da notícia:

 
 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A casa branca no final da Rua Pernambuco.

Andamos nas cidades tão ocupados que não percebemos que estamos cercados de estórias. Muitas delas tão próximas a nós que se soubéssemos disso pararíamos um pouco e prestaríamos atenção a alguma coisa ou a alguém que está passando na nossa estrada. Foi isso que aconteceu com Gracinez. Gracinez era uma gracinha de menina. Uma moça muito esperta e inteligente; criou-se na roça e depois, por volta de 1985, foi morar em Aracaju. Naquela época Aracaju dava sinais de crescimento e ninguém tinha tempo de parar e prestar atenção a alguma coisa fora da rotina. Todos estavam em harmonia com o ritmo do progresso. Contudo as cidades têm bueiros e esgotos, ruas velhas e novas, sangue aqui e ali. Aracaju seguia o rumo de todas as filhas do Brasil.
A jovem de Monte Alegre estava um dia à tarde caminhando perto dos trilhos da Leste. A Leste é a ferrovia Sul Atlântico, uma ferrovia que sai de Aracaju e cruza boa parte do estado. A moça estava tão desatenta que pisou em falso e machucou o tornozelo. A dor foi tão grande que a menina mal conseguia andar. Um senhor de idade um tanto avançada percebe o ocorrido e aproxima-se da moça.
- O que houve menina? Machucou-se?
- Sim. Pisei em falso e parece que torci o tornozelo.
- É bom pôr gelo. Passa logo. Chegue à frente. Aqui é minha casa! “Maria!” Gritou o senhor em busca de ajuda. Dona Maria veio logo e com Deus na boca disse:
- Valha-me meu Deus! O que houve Tião?
- Foi a menina que machucou o pé.
- Vixe minha fia, tá com a cara cheia de dor. Chega pra cá! Seu Tião trouxe um banco de madeira e dona Maria pôs gelo no machucado de Gracinez. Eles moravam no final da Rua Pernambuco já avistando os trilhos da Leste. Dizem que as aranhas caranguejeiras invadiram as casas daquela quadra. Foi um sofrimento para o povo do lugar. Mas, fazer o que? Seu Tião dizia que as coitadas não tinham mais onde ficarem.
- Tá mió, minha filha?
- Tô. Dói um pouco, mas, acho que dá para andar.
- Dá mesmo? Num quer ficar mais um pouco? Olha lá hein! Seu Tião pegou outro banquinho e sentou-se ao lado de Gracinez e iniciou uma prosa com a menina.
- Sabe moça, aqui já foi bom de morar. Não tinha bandido; nem droga, nem gente sem futuro. Todo mundo vivia como Deus quer; bem contente com o que podia ter. Tinham muitas mangueiras, havia muitos sítios; as casas eram mais distantes umas das outras, mas, nem por isso o povo não se falava. O Aribé era um lugar bom de morada e para aqui vieram muitos de todos os cantos de Sergipe. Lembro-me de uma moça cujo nome é o seu. Dona Gracinez. Ela veio de Monte Alegre com suas filhas e por aqui ficou até Deus a levar. O povo todo da rua contava que Gracinez teve um grande amor antes de casar-se com seu Feliciano. Este tal Feliciano era um homem bom, embora, muito rigoroso na educação das filhas. Ele conheceu uns homens do bando de Lampião quando morava em Monte Alegre na época em que o cangaceiro levou dona Gracinez para ser mulher de um soldado de Curísco. Naquela época as mulheres tinham muito medo que Lampião roubasse suas filhas. Dona Gracinez foi uma das vítimas do cangaço. A jovem menina se interessou pela estória do velho e esqueceu-se da dor de seu pé.
- Conte seu Tião como foi a estória de Gracinez no cangaço! Disse a menina Gracinez com curiosidade.
- Minha filha essa estória me arrepia todo. Eu tive que tomar banho de arruda para parar de sonhar com o bode preto.
- Bode preto, que bode preto? Perguntou a moça Gracinez.
Gracinez era filha de um pequeno agricultor e vivia uma vida de rainha no seio de sua amada família. Todos os dias ela ia com seu pai pegar leite no curral da roça deles. Eles saíam antes do sol subir. Gracinez estava noiva de um soldado da polícia que havia sido promovido a sargento por méritos. O homem era dedicado ao que fazia. Quando o rei do cangaço cercou Monte Alegre, o Sargento Cupertino se prontificou a chefiar a tropa de resistência e captura do delinqüente. Tentou muitas vezes, mas o danado escapuliu de todas. Lampião gostava de forró e por isso as pessoas davam festa para ele e seus homens. O problema é que moça direita não andava nesses lugares. Um dia saindo do curral de sua fazenda Gracinez e seu pai se depararam com os homens do bando de Curísco. Um deles olhou para a pequena e se apaixonou por ela. O bando seguiu destino assim como Gracinez e seu pai.
- Como era o amor dela com o Sargento seu Tião? Perguntou Gracinez.
- Cupertino era um rapaz correto e queria casar-se com ela. Todas as noites quando não estava de serviço jantava com a família dela. Era uma pessoa de casa. Os dois se amavam de verdade. Gracinez dizia: “Sem Cupertino, num vivo mais”. Eles se entendiam muito bem e as diferenças eram resolvidas na conversa como deve sempre ser, num é minha filha? Pois bem, Monte Alegre fazia tempo que tinha visto um amor daquele. Contudo o rapaz de Curísco ficou com a imagem do rosto de Gracinez em sua cabeça. Ele teve um surto de amor inesperado e sua face caiu desde então. Curísco dizia para ele: “Tá choco macho? Levanta a cabeça!” o rapaz respondia: “Choco não, mas a moça do curral me quebrou o gosto de viver, sem ela não dá. Vamos atrás dela seu Curísco!” O caso durou semanas, até que em uma tarde de sol muito quente encontraram o rapaz caído na beira do tanque. Ele estava com febre e delirava: “Gracinez minha linda onde está você?” Curísco teve muita pena do rapaz. Seu nome era Raimundo.
- Mande três homens buscar essa rapariga da peste! Ordenou o grande Curísco do sertão.
Os homens de Curísco varreram a cidade e acharam a dona Gracinez fazendo o que sempre fazia quase todas as noites. Ela e seu sargento conversavam à porta de sua casa. Os dois estavam combinando como seria a lua de mel. Falavam da serra de Itabaiana e da roça de seu Jucelino no pé da serra. “Ali nascem flores que encantam a todos que passam”.
- Moço, num dê uma de macho! Passe a arma! Disse um homem caboclo com um fuzil apontado para Cupertino. Dois outros homens pegaram Gracinez, vendaram-lhe os olhos e a levaram a cavalo sumindo na escuridão da estrada. O caboclo de fuzil na mão mandou Cupertino virar as costas. Nesse momento o rapaz pensou: “Vão me matar”. Mal parou seu pensamento e a coronhada o jogou no chão inconsciente.
-Cupertino! Cupertino!
Cupertino levantou-se, pôs a mão na cabeça, e viu sangue em suas mãos. Os pais de Gracinez choraram o seqüestro de sua filha por muito tempo. Cupertino não se consolava e alimentava o sonho de reavê-la. Tentou por vezes entrar no arraial dos cangaceiros, mas, nunca conseguiu chegar perto de seu amor. Uma manhã de fevereiro, às dez do dia, ele e três elementos fortemente armados tentaram entrar no arraial pelo acampamento das putas que ficava um pouco mais afastado de Curísco. Foram percebidos logo na primeira barraca e levaram tiros até perto do pasto de Miguel do Amarante uma légua distante do lugar. Cupertino definhava desde então e abandonou a farda. Sua triste vida passou a ser vivida no pé da mesa de sinuca e perto de uma garrafa de pinga. Pobre Manoel Cupertino.
- Seu Tião, e Gracinez? Como ela viveu no arraial? Perguntou a moça bonita do tornozelo doído.
- Bem, minha filha, Gracinez virou mulher de Raimundo. Ou deitava com ele ou morria, mas, o jovem cangaceiro não a tratava mal, seu amor era tão forte que ele sentia seu débito para com a moça e procurava agradá-la. No entanto, por mais que tentasse nada obtinha de sucesso. Raimundo e Gracinez caminharam pelas caatingas do sertão até voltarem a Monte Alegre em um verão quente de Sergipe. A terra gemia como mulher agoniada na hora de parir. A caatinga se veste de cinza com pontos verdes aqui e ali graças à força do juazeiro.
- Cupertino! Cupertino! Chamou dona Josefa, mãe de Gracinez. O rapaz estava deitado no banco da praça da matriz. Os pardais se assustaram quando Cupertino se levanta para atender sua sogra.
- Como? Perguntou ainda grogue o valente soldado.
- Lampião esta de volta, homem, vamos ver se a gente livra Gracinez! Seja macho rapaz, junte uns homens e volte lá!
Han? Cupertino retornou ao banco vencido pelo efeito etílico de sua noite anterior. Era meio dia quando o sol passou as folhas do cajueiro e incidiu seus raios no rosto de Cupertino. O calor era intenso. Quem olhasse para o chão via sombras trêmulas desfilarem ante seus olhos. Cupertino levanta-se, espreguiça-se, abre a boca, coça a barriga e caminha em direção a casa de seu sogro.
- Meu filho! Graças a Deus que você veio. Lampião está em Poço Redondo e amanhã ou depois estará aqui. Disse dona Josefa com muita fé.
- Não tenho mais farda. Vocês não lembram? Como é que vou arranjar gente para ir comigo? Disse Cupertino sem nenhuma fé. Seu Honorato, pai de Gracinez vai até seu quarto, apanha um saco de algodão, e retorna a sala.
- Está aqui tudo que juntei em toda minha vida. Pôs o homem o saco sobre a mesa com muita tristeza. Agora Cupertino sabia que podia reaver sua amada e estava disposto a tudo por esse amor.
- Não se preocupe seu Honorato, amanhã mesmo estarei com os homens aqui. Cupertino saiu da casa de seu sogro mais animado. Passou pela matriz, fez o sinal da cruz, e rumou na direção de Glória para ver se conseguia alguns homens corajosos. Na estrada de Glória, na baixada de um riacho, Cupertino desmonta de seu cavalo para aliviar o ventre. Após o serviço, percebe o moço que não estava só naquela baixada.
- Quem está aí? Sou o sargento Cupertino! Identifique-se! Nenhuma voz veio do mato.
- Será o diabo? Fale logo rapaz antes que eu atire! Berrou o sargento com muita arrogância. Saiu do mato, do lado de uma pedra enorme, um rapaz branco da cabeça grande. Seus olhos eram bem claros, nem azuis, nem castanhos, eram, na verdade, uma mistura de tudo isso. Seu cabelo era castanho escuro. As feições finas, mas a boca estava cheia de dente pobre, e o bafo era o legítimo bafo de onça. O rapaz levava consigo um livro enrolado num pano cinza.
- Que é isso que você carrega? É roubo, moço? Você é do bando de Lampião? Cupertino fez as perguntas de práxis intimidando o moço como se ele ainda fosse alguma autoridade.
- É só um livro que sempre carrego comigo e eu desço aqui para lê-lo e praticá-lo quase sempre. Disse Cristovão, o bruxo de Glória.
- Deixe-me ver este livro! Disse Cupertino dando-lhe uma ordem. Cupertino folheou o livro. Este estava cheio de rezas e de encantamentos. Haviam muitas figuras e símbolos mágicos. Era um autêntico Capa Preta. Cupertino interessou-se muito pelo trecho que diz: “Fazendo com fé a oração da cabra preta você se tornará invisível e só uma pessoa que te ame de verdade poderá te ver”. Naquele instante estava diante de seus olhos a solução da vida de Gracinez: “Entrarei no arraial de Lampião sem ser visto e a trarei de volta”. Sua vontade de ver sua amada era tão grande que ele se esqueceu do resto da oração.
- Moço, você quer quanto pelo livro? Perguntou Cupertino.
- Num vendo não moço. Esse livro meu pai trousse de São Paulo.
- Moço meu caso é urgente e preciso me tornar invisível para libertar uma pessoa que está nas garras de Lampião.
- Mas eu num vendo não. Repetiu o rapaz.
- Tenha piedade moço. Insistiu Cupertino.
- Eu rezo por você. Na verdade nunca testei este encantamento, mas acho que para uma causa nobre como essa os espíritos vão nos ajudar. Feche os olhos!
- E pode rezar aqui? Perguntou o bravo soldado do sertão.
- Num se preocupe! Aqui é o local certo de magia deste tipo, feche bem os olhos e se concentre na cabra preta.
“Pelo galo que cantou;
Pela cabra que berrou;
Pelo sol que levantou;
Pela noite que chegou;
Eu chamo as forças da jurema, do Imbuzeiro, e do cruzeiro;
este moço será um bode invisível e salvará sua amada”. Na mesma hora, em plena luz do dia, caiu um raio que torrou um pé de mandacaru que estava faceiro perto dos homens. Cupertino desapareceu, o rapaz era agora um bode preto do sertão.

- E agora seu Tião, como vai terminar esta estória. Esquisito! Perguntou assustada a pequena Gracinez. “Maria, pega um cafezinho para nós”. Dona Maria levantou-se do banco e foi à cozinha buscar café. Ao retornar ela diz: “Faz vinte anos que ouço esta estória e é nessa parte que Sebastião pede um cafezinho. Conte logo homem já, já escurece, a menina tem que ir para casa”.

O bode preto inicia sua caminhada pelo sertão em busca de sua amada. Por onde passava berrava e o povo ouvia seu berro, mas, não sabia de onde vinha. A população que morava no beiço das estradas estava apavorada com aquele berro triste de partir o coração. O sogro e sogra de Cupertino nunca souberam o motivo do rapaz não ter mais aparecido. Cupertino agora pertencia à outra estória. O bode preto avistou o arraial de Lampião na manhã do dia 29 do mês de Santana. O bode preto andou em círculos berrando sem cessar até que os cangaceiros incomodados com zoada indagaram sobre o que estava acontecendo. Ninguém tinha resposta. Era um som de bode que os acompanha pelas estradas do sertão, fosse dia ou noite, manhã ou tarde, o berro do bode estava no ouvido do povo. O próprio lampião já não suportava mais aquele berro triste.

- Curísco vá chamar dona Florisbela para rezar. Ordenou o rei do cangaço. Curísco pegou a estrada da tapera e foi em busca da benzedeira. A mulher ao chegar aos limites do arraial gritou em alto e bom som: “Salve o bode preto!”

- Que é isso dona? Perguntou Curísco a benzedeira.

- É o bode preto que está no encalço de vocês. Conta a lenda que ele não pode ser visto. Somente a pessoa que o ama pode fazê-lo tornar-se visível.

- E a tua reza não pode expulsar este animal de perto de nós?

- Não, ele está aqui porque ele está em busca de sua amada. Deve haver alguém aqui que o bode deseja.

- Há três anos um de nossos homens teve uma febre de fricote por causa de uma moça de Monte Alegre, e nós roubamos a moça de casa. Não sabíamos que a coisa era tão séria assim. “E agora o que fazer?” Perguntou Curísco preocupado. Raimundo estava na espreita ouvindo a estória da rezadeira. O rapaz amava muito Gracinez e não queria perdê-la. Raimundo gritou: “Faça um feitiço para o bode aparecer e nós mandamos chumbo nele.

- Num é tão fácil assim não. O bode preto é um encantado e as forças da Jurema estão com ele. Você nem imagina a força de um bode preto. O jeito é levá-lo até a moça e quando ele vê-la, ele ficará visível por causa do amor que está dentro dele. E será nesta hora que vocês vão rezar a oração do desmanche antes de pegá-lo:

“Sapo cururu;
Coruja encantada;
Serpente alada;
Pela força da calunga;
Pela força do cruzeiro sagrado;
O bode ficará visível”.

- Rezem, depois ele será visto, e façam com ele o que quiserem. Mas é bom sangrá-lo na garganta com uma faca virgem. O bode era grande, uns dois metros de bode. Ele tinha chifres afiados e uma barba de bode muito atraente, na verdade, o bode preto era um bode de lei. Depois disso Curísco e seus homens tomaram Gracinez numa conversa muito astuciosa:

- Moça, vá buscar água no tanque. Volte logo, seu Virgulino está esperando. A água do tanque era quase verde, mas, era única que tinha, e dela o povo bebia, cozinhava, e tomava banho. Quando a moça Gracinez foi buscar água, o bode veio ao seu encontro. À proporção que ele berrava, ele se aproximava, e seus berros deixavam o tom de tristeza para ser tom de alegria. A moça nada entendia até que viu uma forma trêmula de bode se formando na miragem do sol quente da caatinga sergipana. “É um bode preto!” Pensou a moça consigo. O bode aproximou-se dela e ajoelhou-se aos seus pés e berrou como que fosse um choro, misturado de alegria e sentimento. Cupertino, finalmente, encontrara seu amor. A pobre Gracinez em sua inocência passa a mão na cabeça do bode com muito cuidado para não tocar-lhe os chifres. Este se deita aos seus pés e põe como um cachorrinho a barrica para cima. A moça passa a mão na barriga do bode. Raimundo estava à espreita por entre as moitas de macambira. Ele e seus jagunços. Todos correm e amarram o bode pelas pernas.

- Mulher, estás me chifrando com o chifrudo preto? Perguntou Raimundo com o rosto transtornado.

- Não! Você não vê? É só um bode perdido. Respondeu-lhe a moça de Monte Alegre.

- Esse é o bode fantasma que andava assombrando todos os povoados desse sertão. Esteja preso bode maldito! Levaram o Cupertino para o arraial. Deram tiros no chão e o bode pinotava para todos os lados enquanto isso os homens de lampião davam gargalhadas. Gracinez não sabia o motivo, mas sua alma chorava ao ver o sofrimento do pobre bicho.

- Seu Tião, o que houve depois disso? Os dois ficaram juntos? Perguntou a pequena Gracinez do Aribé.

- Minha filha, juro por Deus, mas conta o povo que o bode...

- Parem de atirar! Ordenou o rei do cangaço.
- Isso é coisa de macho? Zombar de um pobre bicho? Continuou seu Virgulino.
- Deixem o bode quieto. De hoje em diante o bode anda conosco. Daquela hora para frente Cupertino deixou de berrar e só andava com Gracinez. Para onde a moça ia, o bode ia atrás. Muitas foram as noites e dias juntos. E Raimundo sempre cismado com o coitado do bode. Ele nunca mais ficara invisível, agora, seria um bode de estimação do cangaço.

- Mas, minha filha a vida num é sempre rosas. Essa estória parece não ter um fim, mas teve.

Era noite de lua. Esta estava imponente no céu do sertão de Monte Alegre. As serras vistas a distância não mais encobriam a orgulhosa senhora da noite. É tempo dos bichos darem seus uivos, ou gritos, e no caso do bode, berros. O bode berrava de alegria e pulava para todos os lados como que dançasse a luz do luar. Desse jeito foi se aproximando da barraca de Raimundo onde Gracinez estava. O casal estava fazendo amor, ou melhor, Raimundo fazia amor e Gracinez pensava em Cupertino. A moça nunca esquecera seu homem. As mulheres são assim, quando amam, amam até fim. O bode entrou na barraca do casal e deu um berro assustado quando viu sua amada naquela situação. “Bérrrrrrr!” Estas foram as últimas palavras de Cupertino. Raimundo saltou de onde estava e tomou a faca virgem por ele guardada em segredo e tomou o bode pelos chifres e o levou para a beira do tanque sob os gritos de Gracinez apavorada. “Não mate o bichinho, não, Raimundo”. Raimundo passou a vaca no pescoço do bode cortando-lhe a artéria. O animal se estrebuchava em uma poça de sangue que escorria para dentro do tanque. Lentamente o bode se transforma em figura de homem e de homem conhecido. Gracinez reconhecera que era o seu amor. Correu e o abraçou dando-lhe beijos no rosto e fazendo-lhe juras de amor eterno. Com isso Raimundo enfraqueceu o juízo. Quando amanheceu o dia, todos do arraial sabiam do ocorrido e como Raimundo havia assassinado o bode preto. Lampião ordenou seus homens que enterrassem Cupertino e ao lado de sua sepultura enterrasse Raimundo até o pescoço e jogasse mel na cara. A cara do cangaceiro foi comida pelas formigas e Gracinez foi mandada de volta para seus pais. Todo o povo do sertão chorou a morte de Cupertino – amor como esse é coisa rara. Gracinez voltou para Monte Alegre, conheceu seu Feliciano, casou-se com ele. Depois da Segunda Guerra vieram morar no Aribé, em Aracaju, em uma casa branca no final da Rua Pernambuco. Ali criaram suas filhas que devem estar vivas até hoje.

- E Gracinez, seu Tião? Está ainda viva?

- Não minha filha. A pobre mulher fez de tudo para amar Feliciano, contudo, sempre Cupertino estava em seus pensamentos. Morreu e foi enterrada aqui no cemitério perto da Leste.

- E na casa que eles moravam mora gente lá? Perguntou curiosa a menina Gracinez.

- A casa fica logo ali, é só seguir em frente e você a verá.

Gracinez despediu-se do velho e de dona Maria. Agradeceu-lhes os cuidados e o bom dedo de prosa. A moça seguiu seu destino caminhando com dificuldade. A curiosidade é coisa natural de todos os homens. E quando falamos do sexo feminino parece que ela é bem maior. A moça foi ver a casa da finada Gracinez. Era uma casa branca que estava toda descascada com o tempo. O portão quebrado com um lado caído. As pessoas entravam ali para fazerem tudo que queriam. Havia fezes pelo antigo jardim. As pessoas aproveitavam o muro alto da propriedade para usarem de tudo. Gracinez entrou pelo portão, e caminhou em direção do hall que estava cheio de folhas secas e papel velho. Tentou abrir a porta da frente, mas, não teve sucesso. Então, disse ela consigo: “Onde vai dar este beco?” Ela seguiu o bequinho na lateral esquerda da casa, e mais adiante avista uma goiabeira e nela amarrado um bode, e o bode era preto. “Um bode preto?” Pensou ela. “Deve ser coincidência”. Naquele instante ela rever a estória que o velho preto da leste tinha contado. “Será o mesmo bode?” Enquanto a moça está tentando situar-se no tempo e espaço, pois, sua mente procurava respostas. Atrás dela surge uma voz que ela já conhecia.


- Minha filha, a vida é cheia de sentidos assim como as cidades são cheias de casas. Em todas elas moram estórias nunca contadas. Os homens transitam entre elas como sonâmbulos acordados pelo o urgir das necessidades.

- Mas, o senhor não é seu Tião? Perguntou Gracinez confusa e assustada.

- Tião é um contador de estórias como eu. E você quem é? Perguntou-lhe o velho de Aruanda.

O bode que estava preso deu um berro e a corda quebrou-se sozinha sem força de mão de homem. O bode veio até Gracinez, ajoelhou-se ante seus pés e chorou amargamente. Depois se deitou como um cãozinho de estimação com a barrica para cima. Gracinez passou a mão em sua barriga peluda, e sentiu uma ternura profunda. Olhou para trás e lá estava um preto velho sentado com as costas encurvada observando tudo. A fumaça de seu cachimbo subia ao céu como a oração dos justos.

- Gracinez, acorde! Disse o velho de Aruanda.

Gracinez cresceu, casou-se, e foi morar no Santo Antonio. Todas as tardes quando chegava do trabalho ela ia até o oitão da igreja olhar a vista da cidade princesa do Brasil. E era nessa hora que seu peito ardia de saudades da cidade de Monte Alegre onde vivera sua infância e nunca ninguém lhe contara sobre Cupertino e o bode preto...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Prece à Oxalá


Oxalá, pai de todos os homens que vagam nessa terra, viemos aqui, pedir através de nossos guias e anjos das guarda a tua divina misericórdia. Valei-nos de todos os males que nos assolam e  perdoa-nos, meu pai, pois não sabemos o que fazemos. Perdoa aqueles que praticam a violência, perdoa todos os egoístas e mesquinhos... Abranda os corações daqueles que são frios e que através de ti, possamos levar luz aqueles que estão na mais imensa escuridão. Que na tua fé meu pai, nós possamos ser teu instrumento para a prática do maior mandamento de nosso criador: O amor ao próximo. E que pela caridade aos irmãos necessitados, nós possamos demonstrar isso.
Olhai meu pai aqueles que estão enfermos; aqueles que permanecem em leitos, e em camas tristes e oprimidos pela incapacidade física. Que, cada vez que a humanidade e os cientistas possam pensar que tu não existe, possamos ver mais e mais teus humildes guias curando enfermos, caboclos iluminando as matas e pretos-velhos portando toda a sabedoria dos orixás. Cobre-nos cada vez mais com teu manto de amor e proteção meu pai, pois este mundo precisa.
Proteje todos os meus irmãos meu pai oxalá. Aqueles que eu conheço e aqueles que não conheço. Os consanguíneos e os que não são, pois todos nós somos um. E que tuas bençãos recubram todo esse planeta que tu reges meu pai oxalá. Cheuepa babá!
Que as palavras desta tua pequenina filha possa atravessar os mares e que essa prece possa chegar sempre aos corações de quem precisa.


Axé.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Manifesto de Alerta ao Povo de santo.


 Sabemos que cada vez mais torna-se crescente o número de casas de axé que migram do perímetro urbano para o perímetro rural. Essas migrações ocorrem por vários motivos, como: O cultivo dos elementais que são necessários no culto aos orixás (ervas, frutas, e folhas diversas), a criação dos animais que serão imolados aos deuses (em casos de casas de candomblé, ou umbanda adepta à ultilização de sacrifício animal), as correntes reclamações de suas respectivas vizinhanças pelo barulho dos atabaques (para as casas que se utilizam de atabaques), pelo contato com a natureza, a qual se torna imprescindível no culto dos orixás pela ultilização de espaços considerados pelo “povo de santo” sagrados, como: As matas e os rios.
Contudo, um dos motivos que incentivam os pais e mães de santo à executarem essas migrações nos chamam atenção; A falta de lugares, em perímetro urbano, para serem despachados os ‘Ebós”, ou “trabalhos”, devido ao desrespeito aos objetos e comidas sacralizadas nos mesmos.
Ex.: Um pai de santo “tal”, que possui sua casa em perímetro urbano, ou seja dentro da cidade, decide “arriar” um Ebó numa encruzilhada próximo à sua casa de axé por falta de um lugar apropriado no perímetro urbano, para a execução de tal tarefa destinada aos filhos dos Orixás. O Ebó, arriado à meia noite, fica na encruzilhada. Ao amanhecer do dia, com o fluxo de pessoas passando por tal encruzilhada, o Ebó, encontra-se pisoteado, e muitas das vezes chutado intencionalmente por pessoas que duvidam de tal fé. Ou seja, um caso típico e corriqueiro de intolerância religiosa.
Os atos de violências ocorrentes no momento em que o denominado “povo de santo” está arriando o Ebó ao chão, também são fatos alarmantes que estão ocorrendo em vários lugares, inclusive na Bahia, de onde vem a base brasileira das religiões de matrizes africanas. Atitudes como essas, devido à falta de informação da sociedade violentam e retaliam o direito de livre arbítrio de cada ser humano de ser o que se é, e exercer sua cidadania quer que seja à luz do dia ou da noite. É de extrema necessidade que elejamos um representante politico-social para nos defender nas plenárias e assembléias, meus caros irmãos. Casos como o do texto abaixo, são de extrema violência e ignorância. Não podemos deixar de lutar para que isso mude! Nessas eleições, para onde foram seus votos? É preciso analisar, discutir, refletir. Daqui à dois anos veremos as eleições para vereador e prefeitos dos estados e municípios em todo Brasil. Será que esse representante, vindo de nossos mais íntimos desejos de mundança, continuará sendo apenas uma sombra? Pense nisso. É tentando as mudanças pequenas que sonharemos em galgar as grandes.
Então, ouvides meus caros irmãos de santo! Isso é um apelo. Um apelo para todo o chamado “povo de santo”. Seja ele do candomblé, seja ele da umbanda. Juntos, somos mais forte! E é apenas juntos que poderemos mudar esssa hostil realidade.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Liberdade? Abolição?


Meus senhores. Até quando viveremos com esse circo fictício chamado “Liberdade”? Até quando vamos viver embaixo das botas dos senhores de engenhos, brancos e arrogantes por sua ignorância e intolerância sem fim? Até quando, fingiremos que nada acontece? Hoje, deparei-me com mais uma notícia absurda de preconceito, violência e ignorância, da parte dos “herdeiros”; desses tais senhores que nos aterrorizavam no passado: “PM’s acusados de jogar sacerdotisa em formigueiro para ‘afastar satanás’”
Não somos nós que fazemos festa para celebrar o tal treze de maio que nos foi dado como tábua de salvação para os nossos lombos cansados e esvaídos de tanto sangrar? E agora, em pleno século XXI, o que fazemos com essas manchetes, que dizem:
 “...Os policiais se sentiram desacatados com a insistência sobre a legalidade da operação e o comandante do grupo teria autorizado a prisão da sacerdotisa Bernadete Souza. “Neste momento o orixá Oxossi incorporou na sacerdotisa que, algemada, foi colocada e mantida num formigueiro onde foi atacada por milhares de formigas provocando graves lesões, enquanto os PMs gritavam que as formigas eram para “afastar satanás”, afirmou uma testemunha... Quando os membros da comunidade tentaram se aproximar para socorrê-la um dos policiais – de acordo com a versão de testemunhas – teria apontado a pistola para cabeça da sacerdotisa. Ainda na versão dos assentados, enquanto Bernadete, algemada, era arrastada pelos cabelos por quase 500 metros e em seguida  jogada  na viatura, os policiais, segundo eles, “numa clara demonstração de racismo e intolerância religiosa”, gritavam “fora satanás!”
            Em plena a era da globalização e da inclusão em diversos setores sociais, nós, negros, praticantes de nossas religiões, fé e cultura, temos que temer mais uma vez o aço nas botas desses senhores que hoje vestem coturnos e fardas, que afirmam fazer-se cumprir a lei. Que lei é essa que proíbe a diversidade religiosa e sua prática, dentro de um estado laico e democrático? Que tipo de ilegalidade há em cultuar deuses que foram massacrados pela colonização e dominação Eurocêntrica? E ainda falamos em abolição?
            Por afirmar a legalidade do culto as religiões de matrizes africanas, uma mulher, sacerdotisa dos orixás, foi brutalmente violentada moralmente e jogada num formigueiro por policiais, num dos berços das religiões de matrizes africanas no Brasil, a Bahia de “todos os Santos”,  em ato explícito de preconceito e racismo. Se o poder policial, que é constituído para manter a ordem e a segurança dos cidadãos, nos violentam com o preconceito e o racismo, a quem iremos recorrer? Como sobreviver se a sociedade, com suas “ferramentas” nos colocam à margem? Será que teremos que fugir para os quilombos em plenos dias de hoje para dar continuidade as nossas manifestações religio-cultural? Cuidado meus irmãos, pois a liberdade condicional é assistida pelos coronéis, e hoje, foi a filha de Oxósssi, em Ilhéus. E amanhã, pode ser eu, ou você. E de onde o socorro virá?

 Matéria: http://www.jornalbahiaonline.com.br/index.asp?noticia=8923