VENTANIA E MARIANA.
Uma estória cotidiana de amor...
Laranjeiras era parada obrigatória de muitos vendedores de escravos. A antiga terra de Sergipe Del Rei era lugar de muito dinheiro e de movimento de muita gente. As pessoas passavam por lá vindo de muitos outros lugares. Algumas delas deixavam suas vidas, outras nem souberam por que ficaram por lá. Laranjeiras era também parada de muitos contadores de estórias. Dona Marocas era uma delas. Essa mulher viveu na laranjeiras do início do século vinte. Era filha de agricultores que juntaram uns trocados e foram morar na sede. Dona Marocas estudou o curso normal em Aracaju e depois foi ser professora na rede pública. Maroquinha como muitos a chamavam era uma contadora de estórias de todos os tipos e para todas as idades. Ninguém nunca soube ao certo como tudo começou. Diz-se que ela sentiu uma forte dor de cabeça e depois de quatro dias de cama saiu contando de tudo.
- Marocas, mulher, tenha fé em deus! Pare de falar tanta coisa! Estou sem suportar!
- Você sabia o que houve no alto da igreja do Bonfim em 1882?
- O que é que eu tenho a ver com isso? Respondeu sua irmã mais velha irritada.
- Foi o Ventania mulher! Ele beijou Mariana lá no alto na noite da missa de Reis.
- Sabe, Marocas, não suporto mais tuas estória imbecis. Disse sua irmã. O tempo passou e Marocas tornou-se Maroquinha da tapioca. Da tapioca porque seu finado esposo vendia requeijão e outros produtos dentre eles a tão falada tapioca de dona Maroquinha, agora uma senhora aposentada da sala de aula. Dona Marocas era uma mulher fora de qualquer suspeita. Uma professora que se dedicou a educação de jovens e adultos por toda sua juventude. De volta a sua terra em meados de 1964 em uma praça de sua cidade natal ela se deparou com um grupo de jovens jogando capoeira.
- Meninos já contei para vocês a estória de Ventania?
- Não, tia Marocas ainda não!
- Vocês querem que eu conte um dia?
- Sim, sim, dona Maroquinha! Conte hoje de tardinha!
- Tá bom, tá combinado, de tardinha eu volto aqui e conto, mas juntem mais rapazes.
- Certo!
Dona Marocas continuou sua estrada até a casa velha do engenho. Era estranho, mas a velha gostava demais daquele lugar. Ali ela passou a manhã, lendo e olhando o tempo, depois foi para casa. Próximo ao prédio que hoje é a Universidade, Marocas tombou ao chão, virou-se em torno de seu corpo e olhou para cima. Todos estavam lá lhe olhando os olhos. Uns diziam uma coisa, outros diziam outras coisas. E havia aqueles que nada diziam, eram apenas curiosos.
- O que houve com a velha professora?
- Não sei, eu estava aqui e ela caiu sozinha.
- E foi, parece coisa feita!
- Uma mulher idosa, mas cheia de saúde.
- É sim, veja como ela está corada!
- Pois num é mulher, e se ela morrer; vamos ficar sem a tapioca dela.
- O pior é que eu gosto muito de suas estórias.
- Dona Marocas, dona Marocas!
Marocas acordou falando sobre o que viu perto do engenho. Dizia ela que Ventania se encontrava com Mariana nas ruínas do engenho velho. Os dois se amavam muito. Um amor que custou muito caro a ambos. Os negros sempre levavam seus donos nas costas. Um dia Ventania levava o coronel Zé Maria e sua mulher, Catarina, à Igreja do Bonfim, era missa de Reis. No alto, bem no oitão da Igreja Ventania beijou Mariana a primeira vez. Os dois já estavam se olhando a tempo. Quando Mariana viu que o negro havia chegado com seus pais no alto do morro, e sabendo que ele ia dar uma descansada atrás da Igreja, furtivamente, a moça passou por todos e chegou ao moço. Este estava de cabeça baixa olhando a silhueta da cidade lá embaixo. Ela diz:
- José?
- Sim.
- É você? Tá bem?
- Sinhazinha já viu argum negro bem?
- Não se revolte Ventania! Tem gente aqui que gosta muito de você. Os olhos de Mariana se entregaram na primeira olhada. O rapaz hesitou por um pouco, mas depois assumiu seu amor. Ele a beijou com intensa paixão. O desejo de ambos extrapolava o limite que a vida os dava. Os dois estavam presos um ao outro pela força do amor.
- Dona Marocas, continue a nos contar esta estória!
- Qual? Meus filhos.
- A de Seu Ventania e Mariana.
- Ah, sim. Era noite em laranjeiras todos estavam na Santa Missa de Reis. Era o ano de 1879. Laranjeiras estava cheia de filhos ilustres que haviam voltado de outras terras. O coronel Zé Maria discutia com seus amigos sobre não abolir os escravos. A cidade tomaria um baque muito grande.
- O que vamos fazer com a lavoura? Esses abolicionistas!
- Eh, seu coronel, o senhor fala em nome de todos nós, homens de bem desta terra. O que será do Cotinguiba sem a mão escrava?
- Pois é. Por isso é preciso eleger logo um deputado que lute junto ao Imperador mostrando-lhe os perigos que estamos correndo, nós e seu império. O Brasil sempre será escravista e pronto, as coisas sempre foram assim e nós da lavoura, nós que produzimos as riquezas deste país, dizemos não a José do Patrocínio e sua corja. Falou o coronel com muita firmeza.
Ventania e Mariana não se deram conta que algumas pessoas que estavam na Missa dos Reis os viram beijando-se. Pouco tempo depois a estória correu pela pequena Laranjeiras. “A filha de Zé Maria estava a beijar-se com o escravo do mesmo chamado Ventania. Dizem que este é um capoeira muito perigoso. Isso lhe justifica o nome”.
- Eu não garanto por que não vi, mas dizem que dona Mariana namora um negro do coronel.
- Também escutei isso Floresval. Mas e qual é o problema, o amor é lindo. Falou Maria do Amparo.
- Não sei não, acho que vai sobrar para o negro.
Ventania foi preso na quarta feira da outra semana após a festa dos Reis. Dois jagunços do coronel foram à senzala e trouxeram o rapaz. Zé Maria colocou o negro três dias no tronco. Enquanto isso pensaria no que era mais justo. Mariana nada sabia até que seu pai a chamou.
- Mariana, minha filha. Disse o coronel Zé Maria ao ver sua filha entrar no recinto.
- Sim, meu pai, o senhor me chamou? Respondeu Mariana.
- Você está crescendo, eu acho melhor providenciar um marido para você. Disse seu pai com ar de preocupado.
- O senhor está preocupado com uma coisa que eu nem me lembro. Não penso em casar agora. Penso em estudar.
- Mariana! Não seja tola! Você acha que estudar é coisa de mulher?
- Acho que todos são iguais, homens e mulheres, negros e brancos.
- De preferência o da senzala de seu pai, não é?
Mariana ficou sem jeito perante seu pai e sentou-se de cabeça baixa. Zé Maria havia ferido sua presa no ponto fraco. Mariana amava José, o Ventania, e agora ela sabia que seu pai os separaria.
- O que o senhor vai fazer com ele?
- Isso não é de sua conta, mas vocês não se verão mais, entendeu?
- Sim, certo. Respondeu Mariana com a voz rouca de tristeza. Aquele dia fora o pior da vida daquela princesinha. Mariana era uma princesa em Laranjeiras, era isso que o povo dizia. Seu coração era bom, e seu jeito amável de ser, conquistava logo as pessoas. O povo dividiu-se em torno da estória de amor proibido. Mariana casa ou não com o José Ventania, escravo de seu pai? Enquanto dona Marocas contava a estória o povo ficava embriagado com suas palavras e as pessoas aos poucos iam procurando um lugar perto da velhinha contadora de estórias.
- Agora, essa parte de nossa estória se torna mais triste, eu comparo isso ao sofrimento de Nosso Senhor. O coronel mandou pôr o Zé Ventania na praça principal para ser punido em público como exemplo e teve o apoio do padre e do juiz da comarca. “A disciplina deve ser severa para que este caso não se repita com outras pessoas”. Ventania apanhou por trinta minutos sob o olhar de toda a cidade, brancos e negros. As prostitutas da casa de bordel que ficava atrás do mercado choravam e gritavam enquanto Ventania agoniza ante o peso da chibata. Após o açoite, os homens do coronel o levaram de volta para a senzala. A mente de Ventania manteve firme a imagem do momento do beijo. O cheiro da moça ainda enchia o olfato do rapaz. “Parece que o amor não tem cor, você não acha dona Marocas”. Perguntou um rapaz magro de cabelo ruivo.
- É meu filho. O amor uniu os dois mesmo estando em lados opostos, agora a sina do destino os alcançaria no fim de 1882.
-Como assim tia Marocas?
O ano se passou. Mariana não casou e foi estudar com as freiras. Ventania foi vendido para uma fazenda em Alagoas, uma fazenda de um amigo de Zé Maria. Era o tal coronel Manoel Ferreira. Um homem muito poderoso em Alagoas e aliado dos monarquistas. Ventania passou esses três anos pensando em um jeito de fugir e roubar Mariana da casa do coronel. Não sei como, esta parte da estória nunca foi bem contada. Mas, o povo mais velho dizia que Ventania fez pacto com o coisa ruim. Havia na senzala um Babalaô; Babalaô é um tipo especial de sacerdote do culto negro. O seu nome era Joaquim. Pai Joaquim, como todos o chamavam. Pai Joaquim havia visto nos olhos de Ifá que Ventania veria Mariana novamente, “e o destino seguia seu curso como a corrente de um rio”.
- Bem, eu não sei de nada, mas o tal Joaquim era um feiticeiro velho, mexia com o coisa. Falou espantada dona Marocas.
- Não fale sem saber mulher. Respondeu seu Martinz, um umbandista morador de Laranjeiras.
Ventania sumiu da senzala de Ferreira. Foi morar em um quilombo perto da barra dos coqueiros. O tempo passou e o capoeira resolveu visitar Laranjeiras. Era noitinha de 22 de outubro de 1882. Ventania de barba grande e cabelo de tranças caminha pelas calçadas de laranjeiras. Ele segue em direção a igreja do Bonfim, no meio do caminho ele rouba um cavalo preto como a sua cor e tão forte quanto ele, com ele estão dois outros capoeiras. Havia um culto lá no alto. Ventania sobe a maldita ladeira e fica a espreita para ver se encontra Mariana. Mariana estava dentro do santuário. Sua alma estava em paz na presença de Deus, mas sua intuição dizia que algo muito bom estava para acontecer, de fato, aconteceu, Ventania entra santuário adentro montado em um cavalo e aproxima-se de Mariana e diz a moça: “Mariana, venha comigo, e seremos felizes”. A jovem moça foi embora com o negro na frente de seus pais e de toda a sociedade. Nunca se sabe o que um coração apaixonado pode fazer. Ventania deixou dois amigos do lado de fora caso houvesse tiros, e de fato, um dos capangas do coronel atirou para cima por que temeu acertar o tiro em Mariana. Na mesma noite, os dois tomaram uma condução para São Cristovão. Pernoitaram lá e depois desapareceram no mundo como fugitivos. Zé Maria chorou muito a perca de sua filha, principalmente pela forma como tudo aconteceu, a mãe de Mariana, se apegou com o seu santo até o dia que o divino a levou de volta para o lar celestial.
- O que aconteceu com Mariana dona Marocas?
- Ah, meu filho, você não perde por esperar, mas essa estória é muito bela.
Mariana e Ventania foram morar em Rio Real. Naquela época a cidade era acanhada, mas a semelhança de Laranjeiras tinha muito o que se fazer lá, mesmo para um negro recém alforriado como Ventania, digamos, alforriado por imposição. Ventania colocava água nas casas e Mariana costurava para as pessoas. Fazia remendos a princípio, depois o povo se apegou ao seu trabalho e foram procurando a moça. O lar deles, apesar das diferenças várias entre eles, era feliz. Os filhos foram aparecendo. Deus, o divino os abençoou com três filhos. Duas mulheres e um rapaz. O rapaz nasceu primeiro, era o Leandro, e as meninas eram Catarina e Beatriz. A vida de Mariana e Ventania foi como a de todos. O amor era grande. Os anos passam e com eles o implacável peso da idade chega. Ventania morreu primeiro. Deu uma dor nas costas e dessa dor, o negro arriou. Mariana ainda viveu uns dias. Quando Catarina sua filha teve o primeiro neto Mariana ainda pensava em José Ventania. Ela morreu e nunca se arrependeu do que fez.
- Que estória esquisita dona Marocas! Chega me arrepiei toda. Disse a menina Flavinha, filha de seu Amarante.
- É, minha filha quando eu tinha sua idade, eu costumava ver um velho contando essa estória. Um dia me aproximei dele e perguntei qual era o nome dele. Então ele disse:
- Por que vosmercê pergunta meu nome?
- Por que acho que já te vi em algum lugar.
- Fia carece saber o que?
- Só o seu nome.
- Olhe minha fia, no dia que Ventania chegou à senzala de Manoel Ferreira, eu sabia que ele era filho de Ogum. Sua mãe era Oxum, então, ele estava com a espada de Ogum e o amor de Oxum com ele. Eu entreguei a ele o oráculo e disse que sua vida seria como qualquer uma sobre a terra. E não foi assim? Ninguém espere nada além do que a terra pode dar, pois o que é, é isso. A cidade de Laranjeiras cresceu. Muita coisa mudou. Não tem mais dona Marocas. A igreja do Bonfim ainda está lá. As ruínas do engenho velho também.
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
QUASE NA HORA
QUASE NA HORA
Uma psicografia
As portas do Centro estavam abertas. As pessoas estavam em um pequeno salão defronte ao Gongá. Não havia silêncio perfeito, aquele que é exigido em sessões como aquela, contudo, o clima era de muito respeito. Esperei o momento de tomar o aparelho para os trabalhos da noite. Ele estava muito cansado e a quantidade de pessoas na fila era um número bem significante. Apiedei-me do rapaz e não permiti que os obsessores, que eram muitos, chegassem mais perto dele, salvo um senhor que falecera queimado em um acidente de caminhão. A instituição que se propôs receber-nos necessita de uma reforma moral para que a nossa presença não seja constantemente confrontada com os espíritos trevosos que escapam sorrateiramente pelos dedos de seus guardiões por causa da corrente mental viciada presente no ambiente mediúnico. Toda e qualquer ação que nos envolva deve ser ancorada na pedra fundamental da caridade e em uma vida evangélica que seja capaz de atrair mais fluido positivo de nossos irmãos afins do espaço. Fiquei muito feliz em encontrar a moça cigana que a muito havia se distanciado de seu aparelho. Nós espíritos prestadores de serviços em favor da pessoa humana não podemos agir fora de um contexto verdadeiramente cristão. Para tanto desenvolvam a leitura dos evangelhos e a prática da oração; liberem o perdão aos seus devedores e o amor, a maior de todas as virtudes. Fazendo assim, vossos olhos verão a grande bondade de Deus que cura tanto o corpo quanto a alma.
Gonzalles di Sanches
Tobias Barreto, 17 de agosto de 2009
Uma psicografia
As portas do Centro estavam abertas. As pessoas estavam em um pequeno salão defronte ao Gongá. Não havia silêncio perfeito, aquele que é exigido em sessões como aquela, contudo, o clima era de muito respeito. Esperei o momento de tomar o aparelho para os trabalhos da noite. Ele estava muito cansado e a quantidade de pessoas na fila era um número bem significante. Apiedei-me do rapaz e não permiti que os obsessores, que eram muitos, chegassem mais perto dele, salvo um senhor que falecera queimado em um acidente de caminhão. A instituição que se propôs receber-nos necessita de uma reforma moral para que a nossa presença não seja constantemente confrontada com os espíritos trevosos que escapam sorrateiramente pelos dedos de seus guardiões por causa da corrente mental viciada presente no ambiente mediúnico. Toda e qualquer ação que nos envolva deve ser ancorada na pedra fundamental da caridade e em uma vida evangélica que seja capaz de atrair mais fluido positivo de nossos irmãos afins do espaço. Fiquei muito feliz em encontrar a moça cigana que a muito havia se distanciado de seu aparelho. Nós espíritos prestadores de serviços em favor da pessoa humana não podemos agir fora de um contexto verdadeiramente cristão. Para tanto desenvolvam a leitura dos evangelhos e a prática da oração; liberem o perdão aos seus devedores e o amor, a maior de todas as virtudes. Fazendo assim, vossos olhos verão a grande bondade de Deus que cura tanto o corpo quanto a alma.
Gonzalles di Sanches
Tobias Barreto, 17 de agosto de 2009
A VIAJEM
A viajem
Era sábado e Ferreira estava na rodoviária de Tobias Barreto para fazer o que sempre fez aos sábados durante estes últimos 30 anos. Ferreira trabalhava para o Deso e morava em Tobias há trinta anos. Casou com uma moça da terra e nela ficou; fez filhos, criou-os e nunca deixou de jogar dominó em Riachão, sua terra de origem. De Riachão o rapaz nunca se esqueceu. Riachão é uma cidade pequena no centro do sul do estado de Sergipe Del Rei na divisa com a Vila de Campos. A torrezinha da Matriz se avista de longe quando nos aproximamos da pequena cidade da família Dantas. Não sei muito falar desse povo, mas, dizem os antigos, que foi gente muito grande nessas terras de abacaxi doce e bom. Ferreira comprou sua passagem e entrou no ônibus. Este vinha da Bahia às duas da tarde. Era o que fazia a linha Tobias/Aracaju às duas e quinze. O ônibus só atrasava quando a estrada de Itapicurú estava ruim, caso contrário, era muito pontual. Ferreira ao entrar nem percebeu que o carro estava quase vazio, havia poucos passageiros. O costume era nem achar vagas, os carros ficam em menor quantidade no sábado. Um senhor de cabelos grisalhos, pele branca escandinava, olhos azuis e feições nórdicas senta no banco, abre a janela e observa o movimento no Terminal Rodoviário da antiga Vila de Campos. Naquela época a rodoviária situava-se próximo a ponte que divide os dois estados, Sergipe e Bahia. As pessoas colocavam caixas no ônibus, outros conversavam coisas triviais, e assim a cena corria como se tudo que vemos fosse verdade. Tudo estava no seu lugar. E Ferreira também. O rapaz de Riachão pegou no sono esperando o carro sair. Quando o ônibus inicia seu movimento de manobra para sair do terminal Ferreira acorda e volta sua atenção para as pessoas que estão no curso do ônibus, nas calçadas, em frente às lojas. O mundo parece muito normal. Sua pequena viajem rotineira havia iniciado. O interior do veículo fora tomado por um silêncio não habitual. Ferreira olhou as poltronas até onde a vista deu para ver, a quantidade de pessoas era muito pouca. Pensou consigo: “Milagre, pelo menos durmo uns vinte minutos antes de chegar a Riachão”. Fechou os olhos e dormiu. Mas desta feita seu sono foi muito rápido, pois o carro parou no posto de gasolina na saída da cidade para entrar uma senhora com um tabuleiro de acarajé. A moça põe as coisas com a ajuda do cobrador e a viajem reinicia rumo a Aracaju, e no caso do nosso Ferreira, a Riachão. Todos estavam sentados, a estrada estava boa. O dia estava claro. E ferreira estava cochilando com a cabeça encostada do lado direito do carro, o lado que à tarde faz sombra.
- Meninos venham para casa! Gritou dona Franquislane. As crianças correram para dentro de casa, e Franquislane fechou à porteira; era a hora do almoço.
- Meninos, lavaram as mãos?
- Não, mãe, não! Gritaram de volta a meninada.
- Então corram e lavem-se, é mal feito comer com as mãos sujas. A turma toda foi e voltou em um raio. Em cinco minutos todos rezavam a Ave-Maria com a senhora de 45 anos chamada Franquislane. Esta era uma mulher maravilhosa. Bisneta de holandeses que vieram para Sergipe; Franquislane tinha muito para ensinar a seus filhos sobre como viver a vida na prudência dos sábios. Dona Franquislane era da Igreja Luterana, como esta não tinha em Riachão, ela freqüentava a Igreja Católica.
- Agradeçam a Deus pelo pão e comam! Disse Franquislane.
O ônibus parou perto do “pau preto” para um homem entrar. Era um senhor de chapéu preto com a aba um tanto torta na frente. O homem tinha a cara fechada e não saldou a ninguém; ele entrou e sentou sumindo em sua poltrona. O motorista acelera e acorda novamente a Ferreira. Este abre os olhos e avista a Serra da Praça do seu lado direito. “Belos dias de infância”. Pensou consigo o jogador de dominó. Ele olhou para seu relógio e percebe que havia se passado mais de uma hora e nada de Riachão. Ele não havia chegado se quer ao entroncamento do Campestre. “O que foi, será que o relógio está parado ou algum problema, quebrou?” Pensou Ferreira. Olhou para o chão, coçou a testa, encostou a cabeça na poltrona, e se entregou novamente aos cuidados do motorista baiano que iria cruzar Sergipe de sul a norte. A viajem prosseguiu pelas estradas de Campos de Nossa Senhora Imperatriz.
- Você não sabe montar Ferreira? Nem sabe! Disse Everaldo, o filho do marchante, seu Gracindo.
- Eu sei! Eu sei! Sua baleia gorda! Gritou Ferreira.
- Baleia gorda é você, cara de coruja! Você parece uma tapioca, seu filho da peste!
- Filho da peste é você! Psiu! Silêncio! Seu pai vem aí! Disse o menino Ferreira. Os dois meninos que conversavam na baixada perto do riacho que cruza a estrada de acesso a Riachão se abaixaram atrás da moita de capim. E vêem as botas do homem que passava por eles. Nem um dos dois viu o rosto do cidadão.
- Quem era? Perguntou Everaldo.
- Num sei. Disse Ferreira.
- Eu vi as botas e elas estavam sujas de lama. Num sei, não. Continuou o menino. O ônibus passa por um buraco no povoado Saquinho. Com a trepidação do veículo, Ferreira acorda do seu sono. Passa a mão na baba que caía pelo canto direito de sua boca e ver que o carro estava muito atrasado. “Puxa, ainda estamos aqui?” “Deve ser meu relógio”. O homem nem se deu conta que o sol estava começando a enfraquecer. O carro pára novamente e a mulher com o tabuleiro de acarajé desce em Tanque Novo.
- Espera aí, rapaz, deixa eu pegar aqui minha sacola de feijão! Disse a mulher irritada.
A mulher se ajeitou para descer carregando além de sua barriga, o tabuleiro de acarajé. Com certo esforço a pobre senhora desce do ônibus e encontra-se com parentes no beiço da rodagem. Ferreira retorna a posição de antes e pega no sono dizendo para si: “Desta vez quando eu acordar, estarei em Riachão”.
- Ferreira, vá comprar pão!
- Vou não, mãe, vou não! Mande Rubens!
- Menino, você sabe que Rubensvaldo está estudando, não pode ser atrapalhado, vá você, Ferreira! Pelo amor de Deus, seu danado! Ferreira foi comprar os pães. Depois aguardou sua mãe chamá-lo para o jantar.
- Mãe, onde está pai? Perguntou Rubensvaldo.
- Num sei. Ele foi para a malhada e até agora nada.
- Ele deve estar tomando umas pingas antes de voltar para casa. Disse Rubensvaldo esclarecendo as coisas. Ferreira e seu irmão mais velho não se comunicavam bem, a diferença de idade não deixava. Ferreira via o mundo pelo buraco da fechadura. E Rubensvaldo pelos livros de filosofia do curso de Direito. Os dois foram vencidos pelo sono e foram deitar.
- Seu Ferreira! Incomodei-te?
- Não, absolutamente, não. Eu não sabia que estava na viajem. Respondeu Ferreira.
- Rapaz, eu estou precisando muito que você me tire uma dúvida. Disse o senhor de cabelos crespos ruivos e barba curta com um bigode fino no rodapé.
- Pois não. Continuou Ferreira.
- Tem um bode em sua terra que o povo adora. Não é?
- Sim. É o bode Bito.
- Por quê? Como isso aconteceu?
- Rapaz, o bode, sem para que, começou a acompanhar os enterros, por esta causa, as famílias de Riachão passaram a ter o bode como um parente.
- Que coisa esquisita? Mas existe algum motivo que explique isso?
- Levaram o bode para vários psicanalistas e psicólogos e nada. Dizem que pode ter sido apenas resposta mecânica do animal. Algumas vezes quiseram levar o bicho para rituais de magia negra por acharem que o pobre estivesse emacumbado. Enquanto a conversa continua, a viajem segue seu destino. O homem levantou-se e retornou para o seu lugar. Ferreira nem viu que ele usava botas meladas de lama.
- Ferreira, levante e vá para o grupo! O rapaz achou a voz de sua mãe um pouco rouca e pergunta:
- Mãe, por que você está rouca? Por que seus olhos estão inchados? A bisneta de holandesa não se entregava nunca.
- Deixa de frescura moço, levante e vá estudar! Vamos, deixa de moleza! Ferreira levantou-se de sua caminha e foi tomar café, logo em seguida foi para a escola.
Todos estavam descansando no ônibus quando se ouviu um barulho de ferro batendo no outro. O ônibus quebrou o câmbio bem perto da ladeira a um quilometro de Riachão. “Agora não!” “Será que hoje não tem dominó?” Mesmo tão perto da cidade, o homem resolveu esperar o conserto. Pegou novamente no sono.
- Oh, Bito! Oh, Bito! Vá buscar meu pai! Dizia o menino Ferreira subindo a sinistra ladeira do cemitério. O bode continuava na rodoviária e pelo posto de gasolina como era seu costume, nem dava atenção ao moleque. Aquela fora uma manhã muito triste para o jovem Ferreira. Por volta das treze horas saiu a notícia que seu pai, Francisco, havia sido encontrado morto e ninguém sabia a causa da morte. O homem foi levado para o necrotério em Aracaju para perícia. Dona Franquislane chorou amargamente a morte de seu marido. Desde então, lhe caiu o semblante. Até hoje Ferreira vai a Riachão para ver sua pobre velha e jogar dominó. A coitada ainda evita falar sobre o assunto.
- Se não fosse o bode, num sei o que seria de mim! Como assim Franquislane? Perguntou Gorete sua amiga.
- A inocência do animal, e como ele se aproximou de todos aqui. Mulher como é que esse bode sabe que Francisco morreu?
- Num sei mulher, será isso coisa ruim, não?
- Bem Gorete depois que Bito chegou o povo todo se aquietou. Encerrou a conversa sobre o bode, dona Franquislane. De fato o bode havia chegado e logo procurou um canto e ficou em sentinela até o raiar do dia. O caixão de seu Francisco chegou às oito da noite. A lua estava alta e todos da cidade foram curiosos ver Francisco morto. Não se sabe se foi cobra ou o vento. O caixão fora aberto, e não havia marcas no corpo. O homem estava perfeito.
- Mulher, que homem bom! Seu Francisco, partindo tão cedo! Comentou dona Tereza da mercearia.
- Pois num foi comadre, seu Francisco! Coitada de Franquislane. Acrescentou dona Maria.
- Que nada mulher, o homem deixou Franquislane em uma boa. Soube que o homem tinha dinheiro guardado. Mulher respeite o defunto!
Franquislane havia posto os meninos para dormir. Seu intuito era não deixá-los ver o pai morto. Mas menino é menino. Da cama de Ferreira podia-se avistar seu Francisco morto no caixão. Via-se sua boca e a silhueta de sua face. O caixão não era o melhor, mas, um belo caixão. Ferreira olha seu pai morto gretando por entre as cobertas. A visão de seu pai o deixou com medo. O menino entrou em estado de choque. O rapaz tremia na cama como vara verde e ninguém percebeu nada. Naquela situação o menino pega no sono. Ele sonhava com seu pai vivo e que ele corria por um campo muito bonito e limpo. Não havia espinhos ou pedras. A alma do rapaz, finalmente, descansa junto com seu pai. Mas sem razão alguma, a figura paterna se transforma em um monstro com três cabeças. Seus dentes eram tão afiados que quebravam barras de ferro. Ferreira acorda assustado e suado. As pessoas estavam se preparando para a procissão fúnebre. O bode ia à frente chefiando o cortejo, logo atrás, o caixão e os parentes chorando em grupo. O desconsolo era geral. O cortejo sai da casa de dona Franquislane que ficava no pé da ladeira da matriz e passa na Igreja. Ali, estava o padre Paulino, um bom rapaz, que sentiu o chamado do Senhor ainda muito moço. Ele reunia seus colegas debaixo dos pés de manga para brincarem de rezar missas quando era menino da idade de Ferreira. Logo depois foi para Recife estudar teologia, e voltou padre. O bode passa a porta principal da igreja, em seguida, o caixão entra e pára diante do homem de Deus. O padre dá as últimas graças a Francisco e o cortejo desce a ladeira até a estrada do cemitério que ficava em outra ladeira que dava para a estrada de Lagarto. O povo vai se arrumando até que o bode entra no campo santo. Enterraram Francisco, e o bode berrou descendo a ladeira rumo ao posto de gasolina.
- Ferreira! Ferreira! Chamou o motorista.
- Ferreira! Ferreira! Chamou o trocador.
- Ferreira!!! Gritou o motorista.
- Ferreira!!!! Gritou mais forte ainda o trocador.
Nunca se sabe quando a morte vai chegar. Ou onde vamos chegar com ela. No enterro de Ferreira não teve bode Bito. Foram poucos amigos. A maioria era do dominó. A velha Franquislane ficou muito triste com a morte de seu filho caçula. Mas depois com o tempo se consolou com Rubensvaldo. O Dr. Rubensvaldo. Ferreira morreu de infarto num sábado pouco tempo depois que o bode Bito batera as botas, ou melhor, as patas, bem próximo a malhada onde morrera seu pai.
Era sábado e Ferreira estava na rodoviária de Tobias Barreto para fazer o que sempre fez aos sábados durante estes últimos 30 anos. Ferreira trabalhava para o Deso e morava em Tobias há trinta anos. Casou com uma moça da terra e nela ficou; fez filhos, criou-os e nunca deixou de jogar dominó em Riachão, sua terra de origem. De Riachão o rapaz nunca se esqueceu. Riachão é uma cidade pequena no centro do sul do estado de Sergipe Del Rei na divisa com a Vila de Campos. A torrezinha da Matriz se avista de longe quando nos aproximamos da pequena cidade da família Dantas. Não sei muito falar desse povo, mas, dizem os antigos, que foi gente muito grande nessas terras de abacaxi doce e bom. Ferreira comprou sua passagem e entrou no ônibus. Este vinha da Bahia às duas da tarde. Era o que fazia a linha Tobias/Aracaju às duas e quinze. O ônibus só atrasava quando a estrada de Itapicurú estava ruim, caso contrário, era muito pontual. Ferreira ao entrar nem percebeu que o carro estava quase vazio, havia poucos passageiros. O costume era nem achar vagas, os carros ficam em menor quantidade no sábado. Um senhor de cabelos grisalhos, pele branca escandinava, olhos azuis e feições nórdicas senta no banco, abre a janela e observa o movimento no Terminal Rodoviário da antiga Vila de Campos. Naquela época a rodoviária situava-se próximo a ponte que divide os dois estados, Sergipe e Bahia. As pessoas colocavam caixas no ônibus, outros conversavam coisas triviais, e assim a cena corria como se tudo que vemos fosse verdade. Tudo estava no seu lugar. E Ferreira também. O rapaz de Riachão pegou no sono esperando o carro sair. Quando o ônibus inicia seu movimento de manobra para sair do terminal Ferreira acorda e volta sua atenção para as pessoas que estão no curso do ônibus, nas calçadas, em frente às lojas. O mundo parece muito normal. Sua pequena viajem rotineira havia iniciado. O interior do veículo fora tomado por um silêncio não habitual. Ferreira olhou as poltronas até onde a vista deu para ver, a quantidade de pessoas era muito pouca. Pensou consigo: “Milagre, pelo menos durmo uns vinte minutos antes de chegar a Riachão”. Fechou os olhos e dormiu. Mas desta feita seu sono foi muito rápido, pois o carro parou no posto de gasolina na saída da cidade para entrar uma senhora com um tabuleiro de acarajé. A moça põe as coisas com a ajuda do cobrador e a viajem reinicia rumo a Aracaju, e no caso do nosso Ferreira, a Riachão. Todos estavam sentados, a estrada estava boa. O dia estava claro. E ferreira estava cochilando com a cabeça encostada do lado direito do carro, o lado que à tarde faz sombra.
- Meninos venham para casa! Gritou dona Franquislane. As crianças correram para dentro de casa, e Franquislane fechou à porteira; era a hora do almoço.
- Meninos, lavaram as mãos?
- Não, mãe, não! Gritaram de volta a meninada.
- Então corram e lavem-se, é mal feito comer com as mãos sujas. A turma toda foi e voltou em um raio. Em cinco minutos todos rezavam a Ave-Maria com a senhora de 45 anos chamada Franquislane. Esta era uma mulher maravilhosa. Bisneta de holandeses que vieram para Sergipe; Franquislane tinha muito para ensinar a seus filhos sobre como viver a vida na prudência dos sábios. Dona Franquislane era da Igreja Luterana, como esta não tinha em Riachão, ela freqüentava a Igreja Católica.
- Agradeçam a Deus pelo pão e comam! Disse Franquislane.
O ônibus parou perto do “pau preto” para um homem entrar. Era um senhor de chapéu preto com a aba um tanto torta na frente. O homem tinha a cara fechada e não saldou a ninguém; ele entrou e sentou sumindo em sua poltrona. O motorista acelera e acorda novamente a Ferreira. Este abre os olhos e avista a Serra da Praça do seu lado direito. “Belos dias de infância”. Pensou consigo o jogador de dominó. Ele olhou para seu relógio e percebe que havia se passado mais de uma hora e nada de Riachão. Ele não havia chegado se quer ao entroncamento do Campestre. “O que foi, será que o relógio está parado ou algum problema, quebrou?” Pensou Ferreira. Olhou para o chão, coçou a testa, encostou a cabeça na poltrona, e se entregou novamente aos cuidados do motorista baiano que iria cruzar Sergipe de sul a norte. A viajem prosseguiu pelas estradas de Campos de Nossa Senhora Imperatriz.
- Você não sabe montar Ferreira? Nem sabe! Disse Everaldo, o filho do marchante, seu Gracindo.
- Eu sei! Eu sei! Sua baleia gorda! Gritou Ferreira.
- Baleia gorda é você, cara de coruja! Você parece uma tapioca, seu filho da peste!
- Filho da peste é você! Psiu! Silêncio! Seu pai vem aí! Disse o menino Ferreira. Os dois meninos que conversavam na baixada perto do riacho que cruza a estrada de acesso a Riachão se abaixaram atrás da moita de capim. E vêem as botas do homem que passava por eles. Nem um dos dois viu o rosto do cidadão.
- Quem era? Perguntou Everaldo.
- Num sei. Disse Ferreira.
- Eu vi as botas e elas estavam sujas de lama. Num sei, não. Continuou o menino. O ônibus passa por um buraco no povoado Saquinho. Com a trepidação do veículo, Ferreira acorda do seu sono. Passa a mão na baba que caía pelo canto direito de sua boca e ver que o carro estava muito atrasado. “Puxa, ainda estamos aqui?” “Deve ser meu relógio”. O homem nem se deu conta que o sol estava começando a enfraquecer. O carro pára novamente e a mulher com o tabuleiro de acarajé desce em Tanque Novo.
- Espera aí, rapaz, deixa eu pegar aqui minha sacola de feijão! Disse a mulher irritada.
A mulher se ajeitou para descer carregando além de sua barriga, o tabuleiro de acarajé. Com certo esforço a pobre senhora desce do ônibus e encontra-se com parentes no beiço da rodagem. Ferreira retorna a posição de antes e pega no sono dizendo para si: “Desta vez quando eu acordar, estarei em Riachão”.
- Ferreira, vá comprar pão!
- Vou não, mãe, vou não! Mande Rubens!
- Menino, você sabe que Rubensvaldo está estudando, não pode ser atrapalhado, vá você, Ferreira! Pelo amor de Deus, seu danado! Ferreira foi comprar os pães. Depois aguardou sua mãe chamá-lo para o jantar.
- Mãe, onde está pai? Perguntou Rubensvaldo.
- Num sei. Ele foi para a malhada e até agora nada.
- Ele deve estar tomando umas pingas antes de voltar para casa. Disse Rubensvaldo esclarecendo as coisas. Ferreira e seu irmão mais velho não se comunicavam bem, a diferença de idade não deixava. Ferreira via o mundo pelo buraco da fechadura. E Rubensvaldo pelos livros de filosofia do curso de Direito. Os dois foram vencidos pelo sono e foram deitar.
- Seu Ferreira! Incomodei-te?
- Não, absolutamente, não. Eu não sabia que estava na viajem. Respondeu Ferreira.
- Rapaz, eu estou precisando muito que você me tire uma dúvida. Disse o senhor de cabelos crespos ruivos e barba curta com um bigode fino no rodapé.
- Pois não. Continuou Ferreira.
- Tem um bode em sua terra que o povo adora. Não é?
- Sim. É o bode Bito.
- Por quê? Como isso aconteceu?
- Rapaz, o bode, sem para que, começou a acompanhar os enterros, por esta causa, as famílias de Riachão passaram a ter o bode como um parente.
- Que coisa esquisita? Mas existe algum motivo que explique isso?
- Levaram o bode para vários psicanalistas e psicólogos e nada. Dizem que pode ter sido apenas resposta mecânica do animal. Algumas vezes quiseram levar o bicho para rituais de magia negra por acharem que o pobre estivesse emacumbado. Enquanto a conversa continua, a viajem segue seu destino. O homem levantou-se e retornou para o seu lugar. Ferreira nem viu que ele usava botas meladas de lama.
- Ferreira, levante e vá para o grupo! O rapaz achou a voz de sua mãe um pouco rouca e pergunta:
- Mãe, por que você está rouca? Por que seus olhos estão inchados? A bisneta de holandesa não se entregava nunca.
- Deixa de frescura moço, levante e vá estudar! Vamos, deixa de moleza! Ferreira levantou-se de sua caminha e foi tomar café, logo em seguida foi para a escola.
Todos estavam descansando no ônibus quando se ouviu um barulho de ferro batendo no outro. O ônibus quebrou o câmbio bem perto da ladeira a um quilometro de Riachão. “Agora não!” “Será que hoje não tem dominó?” Mesmo tão perto da cidade, o homem resolveu esperar o conserto. Pegou novamente no sono.
- Oh, Bito! Oh, Bito! Vá buscar meu pai! Dizia o menino Ferreira subindo a sinistra ladeira do cemitério. O bode continuava na rodoviária e pelo posto de gasolina como era seu costume, nem dava atenção ao moleque. Aquela fora uma manhã muito triste para o jovem Ferreira. Por volta das treze horas saiu a notícia que seu pai, Francisco, havia sido encontrado morto e ninguém sabia a causa da morte. O homem foi levado para o necrotério em Aracaju para perícia. Dona Franquislane chorou amargamente a morte de seu marido. Desde então, lhe caiu o semblante. Até hoje Ferreira vai a Riachão para ver sua pobre velha e jogar dominó. A coitada ainda evita falar sobre o assunto.
- Se não fosse o bode, num sei o que seria de mim! Como assim Franquislane? Perguntou Gorete sua amiga.
- A inocência do animal, e como ele se aproximou de todos aqui. Mulher como é que esse bode sabe que Francisco morreu?
- Num sei mulher, será isso coisa ruim, não?
- Bem Gorete depois que Bito chegou o povo todo se aquietou. Encerrou a conversa sobre o bode, dona Franquislane. De fato o bode havia chegado e logo procurou um canto e ficou em sentinela até o raiar do dia. O caixão de seu Francisco chegou às oito da noite. A lua estava alta e todos da cidade foram curiosos ver Francisco morto. Não se sabe se foi cobra ou o vento. O caixão fora aberto, e não havia marcas no corpo. O homem estava perfeito.
- Mulher, que homem bom! Seu Francisco, partindo tão cedo! Comentou dona Tereza da mercearia.
- Pois num foi comadre, seu Francisco! Coitada de Franquislane. Acrescentou dona Maria.
- Que nada mulher, o homem deixou Franquislane em uma boa. Soube que o homem tinha dinheiro guardado. Mulher respeite o defunto!
Franquislane havia posto os meninos para dormir. Seu intuito era não deixá-los ver o pai morto. Mas menino é menino. Da cama de Ferreira podia-se avistar seu Francisco morto no caixão. Via-se sua boca e a silhueta de sua face. O caixão não era o melhor, mas, um belo caixão. Ferreira olha seu pai morto gretando por entre as cobertas. A visão de seu pai o deixou com medo. O menino entrou em estado de choque. O rapaz tremia na cama como vara verde e ninguém percebeu nada. Naquela situação o menino pega no sono. Ele sonhava com seu pai vivo e que ele corria por um campo muito bonito e limpo. Não havia espinhos ou pedras. A alma do rapaz, finalmente, descansa junto com seu pai. Mas sem razão alguma, a figura paterna se transforma em um monstro com três cabeças. Seus dentes eram tão afiados que quebravam barras de ferro. Ferreira acorda assustado e suado. As pessoas estavam se preparando para a procissão fúnebre. O bode ia à frente chefiando o cortejo, logo atrás, o caixão e os parentes chorando em grupo. O desconsolo era geral. O cortejo sai da casa de dona Franquislane que ficava no pé da ladeira da matriz e passa na Igreja. Ali, estava o padre Paulino, um bom rapaz, que sentiu o chamado do Senhor ainda muito moço. Ele reunia seus colegas debaixo dos pés de manga para brincarem de rezar missas quando era menino da idade de Ferreira. Logo depois foi para Recife estudar teologia, e voltou padre. O bode passa a porta principal da igreja, em seguida, o caixão entra e pára diante do homem de Deus. O padre dá as últimas graças a Francisco e o cortejo desce a ladeira até a estrada do cemitério que ficava em outra ladeira que dava para a estrada de Lagarto. O povo vai se arrumando até que o bode entra no campo santo. Enterraram Francisco, e o bode berrou descendo a ladeira rumo ao posto de gasolina.
- Ferreira! Ferreira! Chamou o motorista.
- Ferreira! Ferreira! Chamou o trocador.
- Ferreira!!! Gritou o motorista.
- Ferreira!!!! Gritou mais forte ainda o trocador.
Nunca se sabe quando a morte vai chegar. Ou onde vamos chegar com ela. No enterro de Ferreira não teve bode Bito. Foram poucos amigos. A maioria era do dominó. A velha Franquislane ficou muito triste com a morte de seu filho caçula. Mas depois com o tempo se consolou com Rubensvaldo. O Dr. Rubensvaldo. Ferreira morreu de infarto num sábado pouco tempo depois que o bode Bito batera as botas, ou melhor, as patas, bem próximo a malhada onde morrera seu pai.
quinta-feira, 24 de março de 2011
A importância da musica brega nas aulas de redação
A importância do uso da musica brega nas aulas de redação
As aulas de redação muitas vezes são atos mecânicos que seguem regras ou técnicas de produção textual deixando para trás uma quantidade enorme de outros sentidos que a produção textual pode apresentar. O aluno é iniciado no ato de escrever por meio de um termo sem sentido para seu mundo. Ou, embora, tendo algum sentido não oferece ligação psíquica e histórica cultural com ele. Uma palavra não pode ser vazia de sentido. Por esta causa é muito aconselhável que as pessoas aprendam a escrever textos usando termos comuns ao seu cotidiano para depois dar um salto lingüístico bem maior. Reconhecer o valor pedagógico dos textos bregas nas aulas de redação não é apenas um olhar crítico, mas, uma ação inteligente por parte do educador.
A teoria de Paulo Freire entende que os homens diferentes dos animais se relacionam com a realidade de forma consciente. O nível de consciência é variável, mas, ter consciência de seu mundo, na visão de Freire, é possível. A educação é uma forma de despertar consciências. A pedagogia de Freire é uma pedagogia libertadora de mentes, pois, ele entende que isso é possível por meio da educação.
Reconhecer as situações limites que envolvem os homens é um passo muito importante para o educador em todos os níveis do processo. Sem esse conhecimento é difícil trabalhar a educação em sala de aula. Para Freire, professor e aluno constroem seu universo de conteúdos. A situação limite diz para as pessoas de seu mundo, de sua realidade. Existem situações no mundo dos homens que é preciso uma repensada. Todos os homens têm situações limites. O fato de não vê-las, no pensar de Freire, é uma situação limite. Ver as situações limites dos alunos inseridos em um lócus geográfico determinado é poder dialogar com o aluno e a comunidade no mesmo idioma.
A situação limite uma vez posta pelos envolvidos no processo de aprender e apreender o real se torna objeto de questionamentos e diálogos. A situação limite então não deve ser sugerida pelo educador, sua descoberta é criação do grupo. O dialogo provocado pela situação limite em apreço pelas pessoas, provoca a discussão de outros temas relacionados a ela. Os temas geradores são geradores de temas que servirão de objetos de discussão e diálogos. O importante aqui é que, esses temas nos remetem a realidade dos educandos e dos seus parentes, ou seja, de sua comunidade.
A musica brega é importante ferramenta nas aulas de redação por causa de sua textualidade um tanto popular. Além do mais, o estilo brega reflete a realidade de muitos de nossos educando, portanto, tem tudo a ver com seus mundos e situações limites. A pedagogia que usa o brega na produção textual faz uso de material muito rico que expressa formas lingüísticas simples e complexas oferecendo ao educador um léxico muito rico para apresentar aos seus alunos. Se considerarmos que o aprender a escrever é um ato artificial e que a escrita é uma reprodução reduzida da fala, então, podemos ver no texto brega um bom começo para o que Freire chama de letramento. Este processo gradual e acumulativo parte de unidades mais simples para unidades mais complexas. O mesmo princípio se aplica a construção de sintagmas; partindo do simples para o mais complexo o aluno vai aprendendo a tecer o texto e plasmar seu pensamento. Ademais, a produção textual brega instiga o aluno ao diálogo, por que o educando já possui uma vivência psíquica com aqueles signos e códigos postos pela musicalidade brega.
Acho muito importante um estudo mais apurado sobre o papel do texto brega na produção textual de alunos do ensino médio. Apriore, posso dizer que estas são as razões que me fazem pensar da importância do texto brega na produção de texto. Em outros textos pretendo colocar mais lenha na fogueira da discussão.
As aulas de redação muitas vezes são atos mecânicos que seguem regras ou técnicas de produção textual deixando para trás uma quantidade enorme de outros sentidos que a produção textual pode apresentar. O aluno é iniciado no ato de escrever por meio de um termo sem sentido para seu mundo. Ou, embora, tendo algum sentido não oferece ligação psíquica e histórica cultural com ele. Uma palavra não pode ser vazia de sentido. Por esta causa é muito aconselhável que as pessoas aprendam a escrever textos usando termos comuns ao seu cotidiano para depois dar um salto lingüístico bem maior. Reconhecer o valor pedagógico dos textos bregas nas aulas de redação não é apenas um olhar crítico, mas, uma ação inteligente por parte do educador.
A teoria de Paulo Freire entende que os homens diferentes dos animais se relacionam com a realidade de forma consciente. O nível de consciência é variável, mas, ter consciência de seu mundo, na visão de Freire, é possível. A educação é uma forma de despertar consciências. A pedagogia de Freire é uma pedagogia libertadora de mentes, pois, ele entende que isso é possível por meio da educação.
Reconhecer as situações limites que envolvem os homens é um passo muito importante para o educador em todos os níveis do processo. Sem esse conhecimento é difícil trabalhar a educação em sala de aula. Para Freire, professor e aluno constroem seu universo de conteúdos. A situação limite diz para as pessoas de seu mundo, de sua realidade. Existem situações no mundo dos homens que é preciso uma repensada. Todos os homens têm situações limites. O fato de não vê-las, no pensar de Freire, é uma situação limite. Ver as situações limites dos alunos inseridos em um lócus geográfico determinado é poder dialogar com o aluno e a comunidade no mesmo idioma.
A situação limite uma vez posta pelos envolvidos no processo de aprender e apreender o real se torna objeto de questionamentos e diálogos. A situação limite então não deve ser sugerida pelo educador, sua descoberta é criação do grupo. O dialogo provocado pela situação limite em apreço pelas pessoas, provoca a discussão de outros temas relacionados a ela. Os temas geradores são geradores de temas que servirão de objetos de discussão e diálogos. O importante aqui é que, esses temas nos remetem a realidade dos educandos e dos seus parentes, ou seja, de sua comunidade.
A musica brega é importante ferramenta nas aulas de redação por causa de sua textualidade um tanto popular. Além do mais, o estilo brega reflete a realidade de muitos de nossos educando, portanto, tem tudo a ver com seus mundos e situações limites. A pedagogia que usa o brega na produção textual faz uso de material muito rico que expressa formas lingüísticas simples e complexas oferecendo ao educador um léxico muito rico para apresentar aos seus alunos. Se considerarmos que o aprender a escrever é um ato artificial e que a escrita é uma reprodução reduzida da fala, então, podemos ver no texto brega um bom começo para o que Freire chama de letramento. Este processo gradual e acumulativo parte de unidades mais simples para unidades mais complexas. O mesmo princípio se aplica a construção de sintagmas; partindo do simples para o mais complexo o aluno vai aprendendo a tecer o texto e plasmar seu pensamento. Ademais, a produção textual brega instiga o aluno ao diálogo, por que o educando já possui uma vivência psíquica com aqueles signos e códigos postos pela musicalidade brega.
Acho muito importante um estudo mais apurado sobre o papel do texto brega na produção textual de alunos do ensino médio. Apriore, posso dizer que estas são as razões que me fazem pensar da importância do texto brega na produção de texto. Em outros textos pretendo colocar mais lenha na fogueira da discussão.
terça-feira, 8 de março de 2011
A Pedagogia Problematizadora de Paulo Freire e a Musica Brega
A Pedagogia Problematizadora de Paulo Freire e a Musica Brega
INTRODUÇÃO
O presente texto não objetiva esgotar a discussão do uso da música brega nas escolas públicas do Brasil. Ele apenas reflete um insight do autor sobre o tema que será discutido em outros artigos. O texto que segue trabalha o olhar freireano de educação e sugere o uso da música brega como recurso didático em nossas escolas. O texto ainda reconhece que a resistência a esse idéia é previsível, mas, vê no educador comprometido com a educação libertadora uma porta a aberta para o diálogo.
O estudo e a vivência em sala de aula, ao longo de quase trinta anos, me tornaram testemunha viva dos meandros da Educação em Sergipe. Hoje, estou em um pequeno povoado do interior do estado, e leciono para crianças da terceira série do ensino fundamental menor. Percebo que eles têm muita dificuldade para entender os conteúdos ofertados pelo livro didático, e até mesmo, o meu discurso. Fica claro aos meus olhos, que o que foi posto por Freire na Pedagogia do Oprimido se aplica a esse problema. Da mesma forma que precisei adequar meu discurso ao mundo daqueles pequeninos, o livro didático, sua linguagem e conteúdos deveriam também ser revisados e modelados à realidade daquela pequena comunidade de camponeses brasileiros.
“Simplesmente, não podemos chegar aos operários, urbanos ou camponeses, estes, de modo geral, imersos num contexto colonial, quase umbilicalmente ligados ao mundo da natureza de que sentem mais partes que transformadores, para, à maneira da concepção “bancária”, entregar-lhes “conhecimento”ou impor-lhes um modelo de homem bom, contido no programa cujo conteúdo nós mesmos organizamos”. (FREIRE, 1983, pg. 99)
O que salta à minha mente, ao observar essa realidade, é que nossas instituições permanecem insensíveis aos clamores feitos pelo grande educador brasileiro. A educação bancária sobrevive apesar de tantas críticas e reflexões feitas em todo o território brasileiro. As teorias que colocam a educação problematizadora, dialogista e libertadora, não foram postas em prática de forma efetiva, e parece que levaremos alguns anos para que isso acorra.
“Quem atua sobre os homens para, endoutrinando-os, adaptá-los cada vez mais à realidade que deve permanecer intocada, são os dominadores”. (FREIRE, 1983, Pg. 99)
Inevitavelmente, entendemos que a dominação em sala de aula continua tanto na abordagem docente quanto nas políticas e ações do governo. A presença da dominação no olhar freireano ocorre por que os dominadores insistem no modelo bancário de educação, uma vez, que este atende aos interesses das elites. A dominação em sala de aula ocorre de forma muito sutil. Às vezes, o próprio docente não percebe que ele é agente e vítima no processo. A dominação se materializa de diversas formas, até mesmo, nos valores estéticos presentes nos livros ou nas discussões em sala de aula, ou na grade curricular que obriga o professor a trabalhar determinados temas que não são temas geradores de problemáticas como pôs Freire em sua pedagogia libertadora.
O que devemos fazer, na verdade, é propor ao povo, através de certas contradições básicas, sua situação existencial, concreta, presente, como problema que, por sua vez, o desafia e, assim, lhe exige resposta, não só no nível intelectual, mas no nível da ação. (FREIRE, 1983, Pg 99)
Uma das formas que vi como válida para aproximar-me dos alunos foi a música. Esta, como todos sabem, pois, é do conhecimento público, atinge as pessoas de forma contundente. A música encanta as pessoas e as faz imaginar seu mundo. A música como, alguém já disse, é uma forma de aproximar as pessoas das outras e de seu mundo. O gosto musical até certo ponto identifica as pessoas com seu lócus existencial. Música e existência andam de forma muito próxima. Por isso, entendo que o uso da música brega muito se identifica com os postulados que inspiram a prática freireana de educação. Primeiro por que sua problemática, também, contempla a realidade daqueles que estão esquecidos nos sertões desse país. Segundo por que é uma música que possui uma textualidade fácil e possível de ser trabalhada em sala de aula com pessoas em fase de desenvolvimento da escrita ou aquelas que mesmo a possuindo, continuam necessitando de encontrar-se em seu mundo concreto. Terceiro por que ela evoca o imaginário daquelas pessoas, e isso quebra gigantescas barreiras para o educador que, de fato, deseja dialogar com o aluno na sua língua, em seu mundo, e discutir com ele seus problemas. A resistência ao uso do brega na escola é evidente. Contudo, se os professores abrissem os olhos para esse recurso didático, ou, se os responsáveis pelos livros didáticos incluíssem esse gênero musical, facilitaria bastante o aprendizado de nossas crianças. Nada melhor do que uma escola nossa! Aquele que vive a realidade de Raimundo, o leiteiro, ou de Joaquim, o carroceiro.
Por isto mesmo é que, muitas vezes, educadores e políticos falam e não são entendidos. Sua linguagem não sintoniza com a situação concreta dos homens a quem falam. E sua fala é um discurso a mais, alienado e alienante. (FREIRE, 1983, Pg.102)
Não quero dizer com isso que a escola deva reproduzir o discurso de determinado lócus. Pelo contrário, a proposta dialógica de Freire entende que devemos nos aproximar do educando para com isso podermos conduzi-lo à língua do dominador. O diálogo para o educador brasileiro é um diálogo de conflito, de contestação, de desvelamento das contradições com o objetivo de alcançarmos via educação a libertação de ambas as partes: O que oprime e o que é oprimido
INTRODUÇÃO
O presente texto não objetiva esgotar a discussão do uso da música brega nas escolas públicas do Brasil. Ele apenas reflete um insight do autor sobre o tema que será discutido em outros artigos. O texto que segue trabalha o olhar freireano de educação e sugere o uso da música brega como recurso didático em nossas escolas. O texto ainda reconhece que a resistência a esse idéia é previsível, mas, vê no educador comprometido com a educação libertadora uma porta a aberta para o diálogo.
O estudo e a vivência em sala de aula, ao longo de quase trinta anos, me tornaram testemunha viva dos meandros da Educação em Sergipe. Hoje, estou em um pequeno povoado do interior do estado, e leciono para crianças da terceira série do ensino fundamental menor. Percebo que eles têm muita dificuldade para entender os conteúdos ofertados pelo livro didático, e até mesmo, o meu discurso. Fica claro aos meus olhos, que o que foi posto por Freire na Pedagogia do Oprimido se aplica a esse problema. Da mesma forma que precisei adequar meu discurso ao mundo daqueles pequeninos, o livro didático, sua linguagem e conteúdos deveriam também ser revisados e modelados à realidade daquela pequena comunidade de camponeses brasileiros.
“Simplesmente, não podemos chegar aos operários, urbanos ou camponeses, estes, de modo geral, imersos num contexto colonial, quase umbilicalmente ligados ao mundo da natureza de que sentem mais partes que transformadores, para, à maneira da concepção “bancária”, entregar-lhes “conhecimento”ou impor-lhes um modelo de homem bom, contido no programa cujo conteúdo nós mesmos organizamos”. (FREIRE, 1983, pg. 99)
O que salta à minha mente, ao observar essa realidade, é que nossas instituições permanecem insensíveis aos clamores feitos pelo grande educador brasileiro. A educação bancária sobrevive apesar de tantas críticas e reflexões feitas em todo o território brasileiro. As teorias que colocam a educação problematizadora, dialogista e libertadora, não foram postas em prática de forma efetiva, e parece que levaremos alguns anos para que isso acorra.
“Quem atua sobre os homens para, endoutrinando-os, adaptá-los cada vez mais à realidade que deve permanecer intocada, são os dominadores”. (FREIRE, 1983, Pg. 99)
Inevitavelmente, entendemos que a dominação em sala de aula continua tanto na abordagem docente quanto nas políticas e ações do governo. A presença da dominação no olhar freireano ocorre por que os dominadores insistem no modelo bancário de educação, uma vez, que este atende aos interesses das elites. A dominação em sala de aula ocorre de forma muito sutil. Às vezes, o próprio docente não percebe que ele é agente e vítima no processo. A dominação se materializa de diversas formas, até mesmo, nos valores estéticos presentes nos livros ou nas discussões em sala de aula, ou na grade curricular que obriga o professor a trabalhar determinados temas que não são temas geradores de problemáticas como pôs Freire em sua pedagogia libertadora.
O que devemos fazer, na verdade, é propor ao povo, através de certas contradições básicas, sua situação existencial, concreta, presente, como problema que, por sua vez, o desafia e, assim, lhe exige resposta, não só no nível intelectual, mas no nível da ação. (FREIRE, 1983, Pg 99)
Uma das formas que vi como válida para aproximar-me dos alunos foi a música. Esta, como todos sabem, pois, é do conhecimento público, atinge as pessoas de forma contundente. A música encanta as pessoas e as faz imaginar seu mundo. A música como, alguém já disse, é uma forma de aproximar as pessoas das outras e de seu mundo. O gosto musical até certo ponto identifica as pessoas com seu lócus existencial. Música e existência andam de forma muito próxima. Por isso, entendo que o uso da música brega muito se identifica com os postulados que inspiram a prática freireana de educação. Primeiro por que sua problemática, também, contempla a realidade daqueles que estão esquecidos nos sertões desse país. Segundo por que é uma música que possui uma textualidade fácil e possível de ser trabalhada em sala de aula com pessoas em fase de desenvolvimento da escrita ou aquelas que mesmo a possuindo, continuam necessitando de encontrar-se em seu mundo concreto. Terceiro por que ela evoca o imaginário daquelas pessoas, e isso quebra gigantescas barreiras para o educador que, de fato, deseja dialogar com o aluno na sua língua, em seu mundo, e discutir com ele seus problemas. A resistência ao uso do brega na escola é evidente. Contudo, se os professores abrissem os olhos para esse recurso didático, ou, se os responsáveis pelos livros didáticos incluíssem esse gênero musical, facilitaria bastante o aprendizado de nossas crianças. Nada melhor do que uma escola nossa! Aquele que vive a realidade de Raimundo, o leiteiro, ou de Joaquim, o carroceiro.
Por isto mesmo é que, muitas vezes, educadores e políticos falam e não são entendidos. Sua linguagem não sintoniza com a situação concreta dos homens a quem falam. E sua fala é um discurso a mais, alienado e alienante. (FREIRE, 1983, Pg.102)
Não quero dizer com isso que a escola deva reproduzir o discurso de determinado lócus. Pelo contrário, a proposta dialógica de Freire entende que devemos nos aproximar do educando para com isso podermos conduzi-lo à língua do dominador. O diálogo para o educador brasileiro é um diálogo de conflito, de contestação, de desvelamento das contradições com o objetivo de alcançarmos via educação a libertação de ambas as partes: O que oprime e o que é oprimido
domingo, 2 de janeiro de 2011
Elementos de teurgia
Princípios elementares de teurgia
Os procedimentos teúrgicos têm relação direta com seu operador e seus orientadores espirituais. Todo o material usado deve estar em perfeita sintonia com as configurações astrais do operante. Desde uma referência geofísica como um ponto cardeal ao corpo energético do operante do processo. Com isto colocado entende-se que a magia trás consigo a ancestralidade do operante, e um bom mago é aquele que conhece muito bem seu passado eterno, ou pelo menos, seus piores erros neste campo, pois ninguém é mago pela primeira vez. Os magos correm os séculos e de encarnação e reencarnações surgem na terra, uns para fazerem o bem, outros se debandam pelos caminhos mais fáceis da goética. O primeiro passo para a arte da magia é o autoconhecimento. Tendo um guia de verdade, tendo o convite para a senda sem retorno dos magos; aquele que alguns escritores dizem que está em nossas mãos, em forma de rabiscos e signos cabalísticos, como triângulos, quadrados, estrelas, etc., e tendo, é claro, o reconhecimento de um centro com direito legítimo de trabalho, o iniciando deve partir para o autoconhecimento. A pergunta foi: O que é magia? O autoconhecimento sempre foi uma das mais poderosas magias e porta de entrada para as escolas e lojas de magia em todas as épocas. Desde Hermes Trimegistus, Pitágoras, Sócrates e outros, que o mago tem que passar pelo oráculo de Delfos: Quem sou eu? Jesus nos ensinou: Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. A verdade de quem fui e fiz e porque vim agora um mago. Porque preciso operar os processos espirituais em favor dos outros e muitas vezes ter que renunciar a mim mesmo por amor ao meu próximo. Existe o mago missionário. Aquele que veio multiplicar as células vivas do Astral plantadas no nosso orbe. Existe o mago que veio pagar alguma coisa ou muitas coisas. Este já foi um mago antes com toda certeza. E usou a magia para fazer sofrer as pessoas. O autoconhecimento é fundamental para o despertar de um novo mago em um centro de teurgia. O autoconhecimento vem com a vivência de centro, com o meditar sobre a vida e leituras específicas como livros escritos por outros magos, e com a comunhão com o guia, pois cabe a este iniciá-lo no mistério dos magos - O Mistério das Sete Espadas. Lembro-me que um dia eu estava em Poço Redondo Sergipe; eu era professor em um curso de extensão de uma Universidade. Eu tinha que me hospedar em uma pensão todo final de semana. Um dia percebi que havia algo errado em meu quarto. Senti que algo muito ruim havia ocorrido ali. E de fato. Um hospede havia falecido naquele quarto com sua amante. Na outra semana me colocaram em outro quarto. Por volta das duas da madrugada saí de meu corpo e vi que eu estava cercado por espíritos trevosos em forma de crianças. Todos usavam um tipo de arma que nunca entendi o que era aquilo. E eles vieram contra mim com muita fúria. Tentei voltar ao corpo para movê-lo, mas, nada feito. Eu estava cercado por uma legião de quiúmbas famintos para vampirizarem minhas energias. Quando eu achava que tudo estava perdido olhei para minha mão direita e vi um sabre com o cabo alaranjado e a lâmina super afiada. Com a espada na mão, gritei com voz forte e confiante: Ogum yê! Os quiúmbas desapareceram apavorados com o NOME. Desde então trago comigo este pequeno sabre. O sabre que Ogum me deu. E com ele só consigo fazer o que Ogum deseja, e dentro de meus limites e de Seus limites predeterminados para minha visita ao planeta terra. O autoconhecimento é muito importante. O mago deve descobrir que o é. Não é um mero achismo como dizer: “Eu acho que sou isso ou aquilo”. Este tipo de comportamento geralmente oculta a serpente do paraíso – a vaidade humana. Conheça-te a ti mesmo, foi o que Sócrates disse 300 anos antes de Cristo. As escolas iniciáticas exigiam certos conhecimentos, mas, o mais importante para o mago é: Sou um mago? Ou sou um curioso que gosta de fazer milongas? Se tu tens um guia de verdade ele te conduzirá ao autoconhecimento. Esta é uma das maiores magias de um umbandista. Nossos centros estão repletos de pessoas que não sabem o que estão fazendo na Umbanda. O continuum religioso, ou seja, a continuação na fé depende muito do autoconhecimento e do conhecimento das teorias elementares de nossa fé. Esta deve ser uma das razões de tantas ovelhas desgarradas do aprisco de Oxalá.
O que é goética?
O submundo da espiritualidade; o mundo trevoso do bruxedo é chamado de goética – a ativação das forças naturais com fins maléficos. Existem atualmente vários movimentos que se dizem “esotéricos”, mas que representam o passado negro em termos de magia. Não vou citar nomes aqui. Se você tiver um olhar bem observador verá com muita facilidade os adoradores de cemitérios e profanadores de lugares sagrados. Os bruxos estão em todo lugar. Recentemente em Aracaju um grupo de um movimento “X” que se intitulavam góticos (não me refiro aos que fazem do gótico um estilo de vida), profanou um cemitério da cidade, fazendo sexo sobre os túmulos e rituais de invocação de suas entidades. Resultado dois jovens do grupo foram internados com transtornos psíquicos graves. O ocorrido levantou para mim a questão das magias negras disfarçadas de brincadeiras de criança. Um jovem muito inteligente se envolveu com uma dessas escolas de magos, que, aliás, se multiplicam por toda a Aracaju. Fez um ritual na praia, vejam, logo na praia. Todo mago de Umbanda sabe que trabalhos na praia são de muito respeito e perícia por parte do operador. As forças da natureza que estão presentes na praia são poderosas. Acenderam as velas e o grupo operou o processo em nome de seus deuses. Conseqüência, uma das integrantes do grupo logo após a magia sentiu que estava em obsessão e tentou suicídio três vezes. Na mesma semana um dos integrantes do grupo morreu afogado no mesmo lugar. Outra jovem foi atropelada em uma encruzilhada um mês depois. E o operador, “o mago”, está com a vida arrasada até os dias atuais. Dizem que pirou da cabeça. Pai Joaquim diria: “Fio, magia só faz quem tem. Não se ativa força que não se tem em nós, é o primeiro passo”. Muitos de nossos irmãos no santo fazem as chamadas magia, ou, firmação de pé de trunqueira. Geralmente os objetivos são amarração, vingança, etc. as pessoas se acham no direito de solicitar logo a um guardião de Umbanda para fazer trabalhos escusos desrespeitando o livre arbítrio das pessoas e a Lei Maior: “Nenhuma magia pode ser ativada contra um ser humano”. Que direito eu tenho de fazer alguém gostar de mim pela força do magnetismo de uma magia. E a covardia de se vingar de alguém pedindo a um cobrador, logo a um cobrador para derrubar essa ou aquela pessoa? Isso é o mundo do bruxedo, da goética, do culto ao mal, e infelizmente está muito presente na vida dos que se dizem mago, e algumas vezes, magos de Umbanda. No início de meu ministério fiz muitas tolices; fui às encruzilhadas de asfalto, entrei em cemitérios sem o devido conhecimento, cobrei caro das pessoas por meus trabalhos. Até que um dia pela tarde eu estava lendo o livro dos médiuns, e ao meu lado apareceu o rosto bonito de uma senhora linda. Ela havia falecido há muito tempo atrás. E ela me disse: “Pare de fazer estas coisas, senão vais pagar muito caro!” eu sempre pedi aos guias para não ver os mortos. Não acreditei no que via e ouvia. Pedi a senhora para mover uma caixa de fósforos vazia. “Se você é você, mova esta caixa de fósforos!” A caixa de fósforos que estava sobre meu birô não saiu do lugar. “Tá vendo como não vi nada!” “Graças a Deus!” Pouco tempo depois o sono pegou e fui me deitar. Ao deitar em minha cama percebi que havia alguém em pé em minha cabeceira. Logo em seguida a cama foi jogada no ar por três vezes consecutivas. Eu peso muito mais que uma caixa de fósforos, meu peso era na época 98 quilos. Definitivamente, entendi que era um aviso do Astral para parar de criancice. O número 3 é uma mensagem para nós que gostamos de analisar os números sabemos muito bem o que ele quer dizer. O mundo da goética é brincadeira séria de alguns e meio de vida de outros. Conheci um homem que se dizia mago. Ele cobrava muito caro pelos seus serviços. O pobre tinha que andar com seguranças. Havia sofrido vários atentados de políticos como retaliação a seus serviços. Meu jovem mago, iniciado no Mistério das Sete Espadas: Aprenda que teurgia é uma ciência milenar, a ciência que é filosofia e religião, é uma síntese do conhecimento humano e está a serviço do Astral Superior, da Constelação dos Espíritos de Luz para o bem da humanidade. O mago de Umbanda trabalha para neutralizar, cancelar, desativar as obras do bruxedo e não o contrário. Pense e medite.
Saravá Senhor Ogum Sete Espadas.
Partindo do entendimento do que é magia, do que é um mago, do que é magia negra, podemos prosseguir para o entendimento do ato processual mágico. Toda magia é um ato ou uma sucessão deles. Às vezes é um ritual, portanto, conjuga uma variedade de ações ou atos mágicos. Assim como o mover do Espírito do Todo Poderoso se move nos quatros cantos do planeta para uma finalidade positiva na vida de um ser encarnado, os atos mágicos conjugados ou não devem servir para o mesmo fim. A magia alcança o norte, o sul, o leste e o oeste. Ato mágico é toda ação que envolve as forças da natureza em um processo mágico dentro de um espaço mágico. O ato mágico é uma ação física do homem sobre a matéria, portanto o ato mágico possui uma variável cultural. A magia tem formas diferentes em culturas diferentes. Por isso a magia de Umbanda possui uma diversidade cultural muito grande. As Umbandas são muitas; e cada uma possui processos mágicos peculiares que muito contam da história de sua região. O ato mágico pode ser individual ou em grupo. Pode ser ritualístico ou não. O ato mágico é uma ação da vontade humana sobre a matéria. Por isso o ato mágico exige concentração e ligação mento astral com um guia. A vontade do homem potencializa a ação de um guia sobre a matéria modificando-a. Quando a vontade é forte e insistente, o operante concede fluido ao guia do processo e esse manipula a matéria em comunhão com seu aparelho. O ato mágico nesta dimensão é uma co-ação. O guia e o mago unidos pelo magnetismo mento astral e fluido animal humano. O verdadeiro mago conhece a natureza insólita da matéria e sabe que esta se deforma sob a pressão de seus pensamentos. Temos então que o ato mágico é uma ação conjugada de dois espíritos. Um encarnado e o outro desencarnado ou encantado. O ato mágico só faz sentido se for realizado por um mago verdadeiro. Não tomemos o termo ato mágico como qualquer acontecimento milagroso. Podemos dizer que uma criança foi salva de um acidente como por ato mágico. Ato mágico neste livro é o procedimento de um médium mago operando uma magia de Umbanda. Acender uma vela é um ato mágico, por exemplo. O irmão Soares acendeu sua vela e fez sua prece a Xangô. Depois foi fazer seus afazeres. O mago acendeu sua vela a Xangô e no ato de acendê-la entrou em sintonia mento astral com seu guia e direcionou seu magnetismo pelo magnetismo presente naquele ato até um alvo certo e seu espírito logo, logo, percebe que algo foi ativado ou neutralizado na realidade, no mundo real. Para o mago não foi apenas um acender de uma vela que não deixa de ser sempre mágico. Mas isso se torna um ato mágico poderoso nas mãos de um verdadeiro mago de Umbanda. O ato verdadeiramente mágico exige um espaço mágico. E o que é espaço mágico?
O que é espaço mágico?
Espaço mágico é todo e qualquer espaço consagrado à operação de magia. Desde a antiga Suméria até os dias atuais os homens separam espaço na matéria para realizarem suas magias. Um exemplo claro de um espaço mágico é um templo. A arquitetura de muitas igrejas cristãs na Europa mostra a presença da religião dita pagã no cristianismo. Pois seus espaços mágicos trazem evidências da presença das religiões esotéricas, ou pagãs. Os antigos pitagóricos acreditavam que algumas formas geométricas eram sagradas porque representavam a divindade ou uma relação com a divindade. Essas formas eram usadas em magias para separarem espaços mágicos. O espaço mágico é o ambiente onde ocorre a magia e o ponto de força de onde suas energias são direcionadas. Os atos mágicos são operados em grande parte no espaço mágico. O espaço mágico de um médium mago de Umbanda tem muita coisa em comum com ele. Todo médium operador de magia deve conhecer sua posição na roda da magia. Qual é seu pólo de entrada e de saída de forças. Contudo minha vivência mostra que quando alguém é mago de verdade mesmo que ele desconheça estas coisas a magia se realizará com certeza. Mas isso não anula a necessidade do aprendizado do que já foi assentado para nós por nossos grandes mestres da magia. Muitas vezes em uma magia mais de um espaço pode ser aberto. Um médium de Ogum inicia seu trabalho acendendo uma vela para Ogum em um sinal de Pemba autorizado por Ogum para esse fim. Depois ele risca mais um riscado onde serão colocados os elementos movimentadores de energia. Temos então uma magia e dois espaços relacionados. Outros irmãos separam seus espaços mágicos usando apenas as velas. Outros usam panos para forro ou assento de oferendas. Esses espaços são espaços mágicos.
O círculo e o triângulo
Hoje eu tenho habilidade para riscar dezenas de sinais cabalísticos em meus trabalhos. Mas nada se compara a aqueles que você recebeu diretamente de seu guia. O círculo como meio de delimitar meu espaço mágico foi o primeiro riscado que me foi dado numa época em eu nem imaginava o que era lei de Pemba. Minha mãe de santo tinha uma necessidade muito grande de um médium que tivesse esse dom. Ela me passou a Pemba e olhou o que eu ia fazer com ela. O caboclo riscou seu ponto e depois um círculo e em torno dele pôs as velas. E ali iniciamos na magia. Vi problemas graves serem resolvidos dentro desse círculo mágico. Uma senhora teria suas pernas amputadas e ficou curada em alguns dias, outra tinha câncer na vagina e foi curada também. Se fossemos contar as benções recebidas seriamos tomados por arrogantes. Para os pequenos iniciantes na magia como nós, o círculo e o triângulo são sinais poderosos para delimitar um espaço mágico. Entenda; o mago nunca deve trabalhar o que não tem. Se você só tem um ponto riscado no chão, trabalhe com ele. E dele sairá o que você nem imagina. A magia de pontos riscados é tão antiga quanto a humanidade. Não é nada novo como tem sido dito por alguns. Não aconselho a cópia de pontos riscados de ninguém, mesmo sabendo que teu guia pode usar o que já foi posto. Mas neste caso ele vai te fazer ter certeza que isso é teu. O guia tem uma relação com os pontos que te são permitidos operar e eles chegam as tuas mãos de várias formas, na maioria delas em estado de incorporação. O círculo representa o todo. O universo, o Deus Uno. O triângulo representa a conjugação de energias e pólos magnéticos ativados para determinado fim. Assim como do círculo fluem energias que podem se irradiarem em várias direções, do triângulo nós podemos direcioná-la numa só direção específica. No quadrado eu posso recolher vibrações negativas e anulá-las pela fé em meu Orixá. Todos os Orixás podem operar num triângulo, num círculo ou num quadrado basta o médium magista ter o direito de riscá-los e crer que o fenômeno logo acontece. E quem não trabalha com a Pemba? Não é umbandista? Como foi posto acima ele têm outras formas de delimitar o seu espaço mágico. O que conta na verdade é a atitude mental do operador:
- Vontade forte;
- Ligação mento-astral com o guia;
- Concentração;
- Operar a magia de forma sempre ritualística: cantos, procedimentos, invocações, etc.
- Visar o bem de seu próximo.
- Guardar os resguardos pedidos no trabalho.
Com estas coisas em dia o mago logo percebe qual é sua vocação.
Salve o caboclo Tupynajé!
O mago e os Orixás
O mago irradia e recebe as irradiações dos Orixás. Ele é um magneto vivo. Os Orixás são peças fundamentais para o trabalho de um mago. Na magia de Umbanda, sem Orixá sem magia. Em outros sistemas a magia é operada por outras vias. Na nossa Umbanda o Orixá é tudo na magia. Um mago de Umbanda deve ter comunhão com o seu Orixá regente de trabalhos e a ele seguir. Um dia me deparei com uma situação muito complicada. Uma irmã de fé estava passando por um problema muito difícil. Uma entidade de esquerda disse a mesma que o problema só seria resolvido se ela desse a ele quatro bichos de quatro patas. Não me conformei com o fato. Nosso centro não trabalha com Menga (abate de animais). Meditei sobre o caso e invoquei Oxum e Oxumaré para o trabalho. O caboclo preparou uma porção mágica que deveria ser sempre renovada a cada lua crescente durante um tempo determinado, o trabalho de Oxum, que foi muito simples foi arriado na beira do Rio do camboatá. Três meses se passaram e o problema familiar estava totalmente resolvido. Hoje quando vejo o casal e o filho que tiveram logo depois da crise muito me alegra; este caso ficou conhecido para mim como: As flores de Oxum. Algumas pessoas copiam receitas de magia. Saiba que cada magia é única, e que só te serve a tua magia, pois ela está sempre vinculada ao teu Orixá. Com 16 anos eu vi Oxum na minha frente com as duas mãos me chamando para algo que eu nem imaginava que aconteceria. Aos 45 anos ouvi sua voz doce dizendo-me: Trabalhe para mim! Pouco tempo depois eu fui iniciado na Umbanda. Assim foi Oxum, assim foi Ogum e outros; cada um tem sua função e seu momento de atuar. Meu caro mago de Umbanda trabalhe com o seu Orixá. Os Orixás nunca agem isoladamente, uma magia nunca ativa um único Orixá.
Aqui está a lista dos Orixás cultuados em nossa Umbanda:
- Oxalá fazendo par com Oyá-tempo. (um tipo de Iansã)
- Oxum fazendo par com Oxumaré.
- Oxossi fazendo par com Obá.
- Xangô fazendo par com Iansã.
- Ogum fazendo par com Iansã.
- Obaluaiê fazendo par com Nanã.
- Iemanjá fazendo par com Omulu.
Estes pares formam as sete linhas de Umbanda para nós. E dentro das sete linhas o ternário de Umbanda se apresenta de forma bem nítida aos nossos olhos: Caboclos, preto-velhos e crianças. Esse é o princípio de toda a magia de Umbanda. Três forças conjugadas com o objetivo de realizar a felicidade humana na terra desenvolvendo o ser em todos os sentidos da vida. O mago de Umbanda deve estar ligado a, pelo menos um, desses Orixás. Sem Orixá, sem magia!
Qual é o seu Orixá de cabeça?
Já me deram tantos Orixás. Já me disseram que eu tinha de fazer isso e aquilo. Já vi tantas pessoas padecerem com feituras e feituras. Já vi tanta gente sofrer horrores porque andou batendo a cabeça em tanto roncó. Somente uma mão de Ifá com direito e autoridade pode dar um Orixá com 100% de credibilidade. Mas, pergunto eu, esse humilde servo de Oxum: Quantos centros têm essa tão falada mão de Ifá? Já vieram para mim tantos irmãos confusos porque os búzios disseram que eles eram isso e aquilo. Depois de um tempo descobriram que suas vidas estavam a beira do caos. Sabemos que o Mistério Orumilá é coisa séria, mas também sabemos que nem todo centro possui um sacerdote de Orumilá a sua disposição. Alguns dizem que podemos ver pela mão (quiromancia), outros pela data de nascimento e horário de nascimento. Meus caros quando foram feitos os primeiros mapas astrais as posições planetárias eram tão diferentes das de hoje. Sem jogar lama na astrologia, acredito em sua importância, mas duvido de sua exatidão para conferir um Orixá a alguém com 100% de certeza. A concepção de sistema solar mudou e muita coisa que vemos no céu é apenas marca do passado astrofísico do universo. Meu caro irmão: Quantas pessoas sabem o seu horário de nascimento? Posso dizer a vocês que uma ou duas souberam durante todo esse tempo que tenho atendido em um centro de Umbanda. E agora o centro deve ser fechado? Certo que não, pois tenho visto muita benção ser derramada pelos Orixás naquela humilde casa. Existe uma passagem na bíblia, o livro sagrado dos hebreus, que muito pode elucidar esse problema. “O espírito dos profetas estão sujeito aos profetas”. A nossa comunicação mento astral com os Orixás nos capacita a dizer com certeza o Orixá das pessoas. Nós somos os profetas, e os espíritos que atuam em nós nos passam informações preciosas para a edificação da Corrente Astral de Umbanda. Exceto o segredo de Orumilá, esta é a via mais confiável de se dizer um Orixá de alguém: O discernimento espiritual que advém de uma vida de comunhão com seu Orixá regente. Sem o discernimento, sem a vidência, nada feito. Você estará condenado a fazer contas e analisar mapas e mapas, e sempre haverá uma dúvida dentro de você. A numerologia também não garante e as contradições são várias. Estudando diversas cabalas percebi que existem variações entre elas, o que implica numa variação nos números conferidos aos Orixás. Já existem conflitos entre autores e cada um esbraveja que sua cabala é a certa. Vaidade!
Salve o Trono das Sete Encruzilhadas, salve Ifá!
Os procedimentos teúrgicos têm relação direta com seu operador e seus orientadores espirituais. Todo o material usado deve estar em perfeita sintonia com as configurações astrais do operante. Desde uma referência geofísica como um ponto cardeal ao corpo energético do operante do processo. Com isto colocado entende-se que a magia trás consigo a ancestralidade do operante, e um bom mago é aquele que conhece muito bem seu passado eterno, ou pelo menos, seus piores erros neste campo, pois ninguém é mago pela primeira vez. Os magos correm os séculos e de encarnação e reencarnações surgem na terra, uns para fazerem o bem, outros se debandam pelos caminhos mais fáceis da goética. O primeiro passo para a arte da magia é o autoconhecimento. Tendo um guia de verdade, tendo o convite para a senda sem retorno dos magos; aquele que alguns escritores dizem que está em nossas mãos, em forma de rabiscos e signos cabalísticos, como triângulos, quadrados, estrelas, etc., e tendo, é claro, o reconhecimento de um centro com direito legítimo de trabalho, o iniciando deve partir para o autoconhecimento. A pergunta foi: O que é magia? O autoconhecimento sempre foi uma das mais poderosas magias e porta de entrada para as escolas e lojas de magia em todas as épocas. Desde Hermes Trimegistus, Pitágoras, Sócrates e outros, que o mago tem que passar pelo oráculo de Delfos: Quem sou eu? Jesus nos ensinou: Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. A verdade de quem fui e fiz e porque vim agora um mago. Porque preciso operar os processos espirituais em favor dos outros e muitas vezes ter que renunciar a mim mesmo por amor ao meu próximo. Existe o mago missionário. Aquele que veio multiplicar as células vivas do Astral plantadas no nosso orbe. Existe o mago que veio pagar alguma coisa ou muitas coisas. Este já foi um mago antes com toda certeza. E usou a magia para fazer sofrer as pessoas. O autoconhecimento é fundamental para o despertar de um novo mago em um centro de teurgia. O autoconhecimento vem com a vivência de centro, com o meditar sobre a vida e leituras específicas como livros escritos por outros magos, e com a comunhão com o guia, pois cabe a este iniciá-lo no mistério dos magos - O Mistério das Sete Espadas. Lembro-me que um dia eu estava em Poço Redondo Sergipe; eu era professor em um curso de extensão de uma Universidade. Eu tinha que me hospedar em uma pensão todo final de semana. Um dia percebi que havia algo errado em meu quarto. Senti que algo muito ruim havia ocorrido ali. E de fato. Um hospede havia falecido naquele quarto com sua amante. Na outra semana me colocaram em outro quarto. Por volta das duas da madrugada saí de meu corpo e vi que eu estava cercado por espíritos trevosos em forma de crianças. Todos usavam um tipo de arma que nunca entendi o que era aquilo. E eles vieram contra mim com muita fúria. Tentei voltar ao corpo para movê-lo, mas, nada feito. Eu estava cercado por uma legião de quiúmbas famintos para vampirizarem minhas energias. Quando eu achava que tudo estava perdido olhei para minha mão direita e vi um sabre com o cabo alaranjado e a lâmina super afiada. Com a espada na mão, gritei com voz forte e confiante: Ogum yê! Os quiúmbas desapareceram apavorados com o NOME. Desde então trago comigo este pequeno sabre. O sabre que Ogum me deu. E com ele só consigo fazer o que Ogum deseja, e dentro de meus limites e de Seus limites predeterminados para minha visita ao planeta terra. O autoconhecimento é muito importante. O mago deve descobrir que o é. Não é um mero achismo como dizer: “Eu acho que sou isso ou aquilo”. Este tipo de comportamento geralmente oculta a serpente do paraíso – a vaidade humana. Conheça-te a ti mesmo, foi o que Sócrates disse 300 anos antes de Cristo. As escolas iniciáticas exigiam certos conhecimentos, mas, o mais importante para o mago é: Sou um mago? Ou sou um curioso que gosta de fazer milongas? Se tu tens um guia de verdade ele te conduzirá ao autoconhecimento. Esta é uma das maiores magias de um umbandista. Nossos centros estão repletos de pessoas que não sabem o que estão fazendo na Umbanda. O continuum religioso, ou seja, a continuação na fé depende muito do autoconhecimento e do conhecimento das teorias elementares de nossa fé. Esta deve ser uma das razões de tantas ovelhas desgarradas do aprisco de Oxalá.
O que é goética?
O submundo da espiritualidade; o mundo trevoso do bruxedo é chamado de goética – a ativação das forças naturais com fins maléficos. Existem atualmente vários movimentos que se dizem “esotéricos”, mas que representam o passado negro em termos de magia. Não vou citar nomes aqui. Se você tiver um olhar bem observador verá com muita facilidade os adoradores de cemitérios e profanadores de lugares sagrados. Os bruxos estão em todo lugar. Recentemente em Aracaju um grupo de um movimento “X” que se intitulavam góticos (não me refiro aos que fazem do gótico um estilo de vida), profanou um cemitério da cidade, fazendo sexo sobre os túmulos e rituais de invocação de suas entidades. Resultado dois jovens do grupo foram internados com transtornos psíquicos graves. O ocorrido levantou para mim a questão das magias negras disfarçadas de brincadeiras de criança. Um jovem muito inteligente se envolveu com uma dessas escolas de magos, que, aliás, se multiplicam por toda a Aracaju. Fez um ritual na praia, vejam, logo na praia. Todo mago de Umbanda sabe que trabalhos na praia são de muito respeito e perícia por parte do operador. As forças da natureza que estão presentes na praia são poderosas. Acenderam as velas e o grupo operou o processo em nome de seus deuses. Conseqüência, uma das integrantes do grupo logo após a magia sentiu que estava em obsessão e tentou suicídio três vezes. Na mesma semana um dos integrantes do grupo morreu afogado no mesmo lugar. Outra jovem foi atropelada em uma encruzilhada um mês depois. E o operador, “o mago”, está com a vida arrasada até os dias atuais. Dizem que pirou da cabeça. Pai Joaquim diria: “Fio, magia só faz quem tem. Não se ativa força que não se tem em nós, é o primeiro passo”. Muitos de nossos irmãos no santo fazem as chamadas magia, ou, firmação de pé de trunqueira. Geralmente os objetivos são amarração, vingança, etc. as pessoas se acham no direito de solicitar logo a um guardião de Umbanda para fazer trabalhos escusos desrespeitando o livre arbítrio das pessoas e a Lei Maior: “Nenhuma magia pode ser ativada contra um ser humano”. Que direito eu tenho de fazer alguém gostar de mim pela força do magnetismo de uma magia. E a covardia de se vingar de alguém pedindo a um cobrador, logo a um cobrador para derrubar essa ou aquela pessoa? Isso é o mundo do bruxedo, da goética, do culto ao mal, e infelizmente está muito presente na vida dos que se dizem mago, e algumas vezes, magos de Umbanda. No início de meu ministério fiz muitas tolices; fui às encruzilhadas de asfalto, entrei em cemitérios sem o devido conhecimento, cobrei caro das pessoas por meus trabalhos. Até que um dia pela tarde eu estava lendo o livro dos médiuns, e ao meu lado apareceu o rosto bonito de uma senhora linda. Ela havia falecido há muito tempo atrás. E ela me disse: “Pare de fazer estas coisas, senão vais pagar muito caro!” eu sempre pedi aos guias para não ver os mortos. Não acreditei no que via e ouvia. Pedi a senhora para mover uma caixa de fósforos vazia. “Se você é você, mova esta caixa de fósforos!” A caixa de fósforos que estava sobre meu birô não saiu do lugar. “Tá vendo como não vi nada!” “Graças a Deus!” Pouco tempo depois o sono pegou e fui me deitar. Ao deitar em minha cama percebi que havia alguém em pé em minha cabeceira. Logo em seguida a cama foi jogada no ar por três vezes consecutivas. Eu peso muito mais que uma caixa de fósforos, meu peso era na época 98 quilos. Definitivamente, entendi que era um aviso do Astral para parar de criancice. O número 3 é uma mensagem para nós que gostamos de analisar os números sabemos muito bem o que ele quer dizer. O mundo da goética é brincadeira séria de alguns e meio de vida de outros. Conheci um homem que se dizia mago. Ele cobrava muito caro pelos seus serviços. O pobre tinha que andar com seguranças. Havia sofrido vários atentados de políticos como retaliação a seus serviços. Meu jovem mago, iniciado no Mistério das Sete Espadas: Aprenda que teurgia é uma ciência milenar, a ciência que é filosofia e religião, é uma síntese do conhecimento humano e está a serviço do Astral Superior, da Constelação dos Espíritos de Luz para o bem da humanidade. O mago de Umbanda trabalha para neutralizar, cancelar, desativar as obras do bruxedo e não o contrário. Pense e medite.
Saravá Senhor Ogum Sete Espadas.
Partindo do entendimento do que é magia, do que é um mago, do que é magia negra, podemos prosseguir para o entendimento do ato processual mágico. Toda magia é um ato ou uma sucessão deles. Às vezes é um ritual, portanto, conjuga uma variedade de ações ou atos mágicos. Assim como o mover do Espírito do Todo Poderoso se move nos quatros cantos do planeta para uma finalidade positiva na vida de um ser encarnado, os atos mágicos conjugados ou não devem servir para o mesmo fim. A magia alcança o norte, o sul, o leste e o oeste. Ato mágico é toda ação que envolve as forças da natureza em um processo mágico dentro de um espaço mágico. O ato mágico é uma ação física do homem sobre a matéria, portanto o ato mágico possui uma variável cultural. A magia tem formas diferentes em culturas diferentes. Por isso a magia de Umbanda possui uma diversidade cultural muito grande. As Umbandas são muitas; e cada uma possui processos mágicos peculiares que muito contam da história de sua região. O ato mágico pode ser individual ou em grupo. Pode ser ritualístico ou não. O ato mágico é uma ação da vontade humana sobre a matéria. Por isso o ato mágico exige concentração e ligação mento astral com um guia. A vontade do homem potencializa a ação de um guia sobre a matéria modificando-a. Quando a vontade é forte e insistente, o operante concede fluido ao guia do processo e esse manipula a matéria em comunhão com seu aparelho. O ato mágico nesta dimensão é uma co-ação. O guia e o mago unidos pelo magnetismo mento astral e fluido animal humano. O verdadeiro mago conhece a natureza insólita da matéria e sabe que esta se deforma sob a pressão de seus pensamentos. Temos então que o ato mágico é uma ação conjugada de dois espíritos. Um encarnado e o outro desencarnado ou encantado. O ato mágico só faz sentido se for realizado por um mago verdadeiro. Não tomemos o termo ato mágico como qualquer acontecimento milagroso. Podemos dizer que uma criança foi salva de um acidente como por ato mágico. Ato mágico neste livro é o procedimento de um médium mago operando uma magia de Umbanda. Acender uma vela é um ato mágico, por exemplo. O irmão Soares acendeu sua vela e fez sua prece a Xangô. Depois foi fazer seus afazeres. O mago acendeu sua vela a Xangô e no ato de acendê-la entrou em sintonia mento astral com seu guia e direcionou seu magnetismo pelo magnetismo presente naquele ato até um alvo certo e seu espírito logo, logo, percebe que algo foi ativado ou neutralizado na realidade, no mundo real. Para o mago não foi apenas um acender de uma vela que não deixa de ser sempre mágico. Mas isso se torna um ato mágico poderoso nas mãos de um verdadeiro mago de Umbanda. O ato verdadeiramente mágico exige um espaço mágico. E o que é espaço mágico?
O que é espaço mágico?
Espaço mágico é todo e qualquer espaço consagrado à operação de magia. Desde a antiga Suméria até os dias atuais os homens separam espaço na matéria para realizarem suas magias. Um exemplo claro de um espaço mágico é um templo. A arquitetura de muitas igrejas cristãs na Europa mostra a presença da religião dita pagã no cristianismo. Pois seus espaços mágicos trazem evidências da presença das religiões esotéricas, ou pagãs. Os antigos pitagóricos acreditavam que algumas formas geométricas eram sagradas porque representavam a divindade ou uma relação com a divindade. Essas formas eram usadas em magias para separarem espaços mágicos. O espaço mágico é o ambiente onde ocorre a magia e o ponto de força de onde suas energias são direcionadas. Os atos mágicos são operados em grande parte no espaço mágico. O espaço mágico de um médium mago de Umbanda tem muita coisa em comum com ele. Todo médium operador de magia deve conhecer sua posição na roda da magia. Qual é seu pólo de entrada e de saída de forças. Contudo minha vivência mostra que quando alguém é mago de verdade mesmo que ele desconheça estas coisas a magia se realizará com certeza. Mas isso não anula a necessidade do aprendizado do que já foi assentado para nós por nossos grandes mestres da magia. Muitas vezes em uma magia mais de um espaço pode ser aberto. Um médium de Ogum inicia seu trabalho acendendo uma vela para Ogum em um sinal de Pemba autorizado por Ogum para esse fim. Depois ele risca mais um riscado onde serão colocados os elementos movimentadores de energia. Temos então uma magia e dois espaços relacionados. Outros irmãos separam seus espaços mágicos usando apenas as velas. Outros usam panos para forro ou assento de oferendas. Esses espaços são espaços mágicos.
O círculo e o triângulo
Hoje eu tenho habilidade para riscar dezenas de sinais cabalísticos em meus trabalhos. Mas nada se compara a aqueles que você recebeu diretamente de seu guia. O círculo como meio de delimitar meu espaço mágico foi o primeiro riscado que me foi dado numa época em eu nem imaginava o que era lei de Pemba. Minha mãe de santo tinha uma necessidade muito grande de um médium que tivesse esse dom. Ela me passou a Pemba e olhou o que eu ia fazer com ela. O caboclo riscou seu ponto e depois um círculo e em torno dele pôs as velas. E ali iniciamos na magia. Vi problemas graves serem resolvidos dentro desse círculo mágico. Uma senhora teria suas pernas amputadas e ficou curada em alguns dias, outra tinha câncer na vagina e foi curada também. Se fossemos contar as benções recebidas seriamos tomados por arrogantes. Para os pequenos iniciantes na magia como nós, o círculo e o triângulo são sinais poderosos para delimitar um espaço mágico. Entenda; o mago nunca deve trabalhar o que não tem. Se você só tem um ponto riscado no chão, trabalhe com ele. E dele sairá o que você nem imagina. A magia de pontos riscados é tão antiga quanto a humanidade. Não é nada novo como tem sido dito por alguns. Não aconselho a cópia de pontos riscados de ninguém, mesmo sabendo que teu guia pode usar o que já foi posto. Mas neste caso ele vai te fazer ter certeza que isso é teu. O guia tem uma relação com os pontos que te são permitidos operar e eles chegam as tuas mãos de várias formas, na maioria delas em estado de incorporação. O círculo representa o todo. O universo, o Deus Uno. O triângulo representa a conjugação de energias e pólos magnéticos ativados para determinado fim. Assim como do círculo fluem energias que podem se irradiarem em várias direções, do triângulo nós podemos direcioná-la numa só direção específica. No quadrado eu posso recolher vibrações negativas e anulá-las pela fé em meu Orixá. Todos os Orixás podem operar num triângulo, num círculo ou num quadrado basta o médium magista ter o direito de riscá-los e crer que o fenômeno logo acontece. E quem não trabalha com a Pemba? Não é umbandista? Como foi posto acima ele têm outras formas de delimitar o seu espaço mágico. O que conta na verdade é a atitude mental do operador:
- Vontade forte;
- Ligação mento-astral com o guia;
- Concentração;
- Operar a magia de forma sempre ritualística: cantos, procedimentos, invocações, etc.
- Visar o bem de seu próximo.
- Guardar os resguardos pedidos no trabalho.
Com estas coisas em dia o mago logo percebe qual é sua vocação.
Salve o caboclo Tupynajé!
O mago e os Orixás
O mago irradia e recebe as irradiações dos Orixás. Ele é um magneto vivo. Os Orixás são peças fundamentais para o trabalho de um mago. Na magia de Umbanda, sem Orixá sem magia. Em outros sistemas a magia é operada por outras vias. Na nossa Umbanda o Orixá é tudo na magia. Um mago de Umbanda deve ter comunhão com o seu Orixá regente de trabalhos e a ele seguir. Um dia me deparei com uma situação muito complicada. Uma irmã de fé estava passando por um problema muito difícil. Uma entidade de esquerda disse a mesma que o problema só seria resolvido se ela desse a ele quatro bichos de quatro patas. Não me conformei com o fato. Nosso centro não trabalha com Menga (abate de animais). Meditei sobre o caso e invoquei Oxum e Oxumaré para o trabalho. O caboclo preparou uma porção mágica que deveria ser sempre renovada a cada lua crescente durante um tempo determinado, o trabalho de Oxum, que foi muito simples foi arriado na beira do Rio do camboatá. Três meses se passaram e o problema familiar estava totalmente resolvido. Hoje quando vejo o casal e o filho que tiveram logo depois da crise muito me alegra; este caso ficou conhecido para mim como: As flores de Oxum. Algumas pessoas copiam receitas de magia. Saiba que cada magia é única, e que só te serve a tua magia, pois ela está sempre vinculada ao teu Orixá. Com 16 anos eu vi Oxum na minha frente com as duas mãos me chamando para algo que eu nem imaginava que aconteceria. Aos 45 anos ouvi sua voz doce dizendo-me: Trabalhe para mim! Pouco tempo depois eu fui iniciado na Umbanda. Assim foi Oxum, assim foi Ogum e outros; cada um tem sua função e seu momento de atuar. Meu caro mago de Umbanda trabalhe com o seu Orixá. Os Orixás nunca agem isoladamente, uma magia nunca ativa um único Orixá.
Aqui está a lista dos Orixás cultuados em nossa Umbanda:
- Oxalá fazendo par com Oyá-tempo. (um tipo de Iansã)
- Oxum fazendo par com Oxumaré.
- Oxossi fazendo par com Obá.
- Xangô fazendo par com Iansã.
- Ogum fazendo par com Iansã.
- Obaluaiê fazendo par com Nanã.
- Iemanjá fazendo par com Omulu.
Estes pares formam as sete linhas de Umbanda para nós. E dentro das sete linhas o ternário de Umbanda se apresenta de forma bem nítida aos nossos olhos: Caboclos, preto-velhos e crianças. Esse é o princípio de toda a magia de Umbanda. Três forças conjugadas com o objetivo de realizar a felicidade humana na terra desenvolvendo o ser em todos os sentidos da vida. O mago de Umbanda deve estar ligado a, pelo menos um, desses Orixás. Sem Orixá, sem magia!
Qual é o seu Orixá de cabeça?
Já me deram tantos Orixás. Já me disseram que eu tinha de fazer isso e aquilo. Já vi tantas pessoas padecerem com feituras e feituras. Já vi tanta gente sofrer horrores porque andou batendo a cabeça em tanto roncó. Somente uma mão de Ifá com direito e autoridade pode dar um Orixá com 100% de credibilidade. Mas, pergunto eu, esse humilde servo de Oxum: Quantos centros têm essa tão falada mão de Ifá? Já vieram para mim tantos irmãos confusos porque os búzios disseram que eles eram isso e aquilo. Depois de um tempo descobriram que suas vidas estavam a beira do caos. Sabemos que o Mistério Orumilá é coisa séria, mas também sabemos que nem todo centro possui um sacerdote de Orumilá a sua disposição. Alguns dizem que podemos ver pela mão (quiromancia), outros pela data de nascimento e horário de nascimento. Meus caros quando foram feitos os primeiros mapas astrais as posições planetárias eram tão diferentes das de hoje. Sem jogar lama na astrologia, acredito em sua importância, mas duvido de sua exatidão para conferir um Orixá a alguém com 100% de certeza. A concepção de sistema solar mudou e muita coisa que vemos no céu é apenas marca do passado astrofísico do universo. Meu caro irmão: Quantas pessoas sabem o seu horário de nascimento? Posso dizer a vocês que uma ou duas souberam durante todo esse tempo que tenho atendido em um centro de Umbanda. E agora o centro deve ser fechado? Certo que não, pois tenho visto muita benção ser derramada pelos Orixás naquela humilde casa. Existe uma passagem na bíblia, o livro sagrado dos hebreus, que muito pode elucidar esse problema. “O espírito dos profetas estão sujeito aos profetas”. A nossa comunicação mento astral com os Orixás nos capacita a dizer com certeza o Orixá das pessoas. Nós somos os profetas, e os espíritos que atuam em nós nos passam informações preciosas para a edificação da Corrente Astral de Umbanda. Exceto o segredo de Orumilá, esta é a via mais confiável de se dizer um Orixá de alguém: O discernimento espiritual que advém de uma vida de comunhão com seu Orixá regente. Sem o discernimento, sem a vidência, nada feito. Você estará condenado a fazer contas e analisar mapas e mapas, e sempre haverá uma dúvida dentro de você. A numerologia também não garante e as contradições são várias. Estudando diversas cabalas percebi que existem variações entre elas, o que implica numa variação nos números conferidos aos Orixás. Já existem conflitos entre autores e cada um esbraveja que sua cabala é a certa. Vaidade!
Salve o Trono das Sete Encruzilhadas, salve Ifá!
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Vidência
Os búzios rolam
meus olhos embassam.
O babá joga denovo;
tonteia, Oxalá, valei-me!
deu-se o consumado.
faíscas de luz
xeque-mate!
de sete cartas e dezeseis búzios.
rentes como faca de ponta amolada
certeiros como flechas;
se lançadas, nunca erram.
meus olhos embassam.
O babá joga denovo;
tonteia, Oxalá, valei-me!
deu-se o consumado.
faíscas de luz
xeque-mate!
de sete cartas e dezeseis búzios.
rentes como faca de ponta amolada
certeiros como flechas;
se lançadas, nunca erram.
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