Educação e dialogismo: O brega será sempre brega?
Paulo Freire concebeu a educação como um processo entre sujeitos. Como ele mesmo diz: “ninguém se educa sozinho”. Freire entende a educação não como um fenômeno que ocorre no interior das instituições de ensino apenas; para ele, a educação é natural a nossa espécie. Somos os únicos animais da natureza que necessitam de educação, logo, a educação natural é a informal, “ninguém chega à escola sem nada”. (Freire, 1987)
O sujeito freireano não é uma tábua rasa, nem é um sujeito que se constrói unicamente pela atuação de profissionais de ensino. O sujeito de Freire chega à escola com uma visão de mundo, uma história de vida, e uma bagagem de conhecimentos adquiridos no convívio com outros seres humanos. O sujeito de Freire é um sujeito que está na situação de diálogo com o mundo e consigo mesmo.
“O diálogo como encontro dos homens para a pronúncia do mundo é uma condição fundamental para a sua humanização”. (Freire, Pedagogia do Oprimido, p.77, 1987)
O sujeito do diálogo ou dialógico não é uma abstração exclusiva de Freire. Antes dele, Bakhtin já o havia visto com muita clareza. Para o educador pernambucano a palavra é portadora de um valor ímpar. Segundo ele, ela constrói a história e desconstrói realidades. É por meio dela que os homens dominam seus semelhantes, e fazendo isso negam a si mesmos. Ademais, está no usa dela a possibilidade de libertação. (Freire, 1987), (Bakhtin, 1981 apud Dieb e Araújo, 2010)
Tanto Freire como Bakhtin expurgam totalmente o monólogo da educação. Ambos entendem que o homem possui essência dialógica. O homem só se torna sujeito no diálogo. O outro para nós é fator constitutivo de nossa subjetividade. Portanto, a educação bancária, como coloca Freire, é uma educação monológica, imprópria para a criação de sujeitos críticos e autônomos, uma vez, que ela possui um professor narrador da realidade. (Freire, 1987), (Bakhtin, 1981 apud Dieb e Araújo, 2010)
Freire percebe que quanto ao uso da palavra a relação entre os homens não é igual. Existem aqueles que fazem uso dela para a dominação, para instaurar o silêncio, um furto da palavra do outro. Ele chama essa atitude de necessidade de conquista. A palavra se volta contra o outro para dominá-lo e sujeitá-lo por um processo de amansamento e alienação. Freire viu que as camadas populares de nossa sociedade eram hospedeiras da palavra do dominador. (Freire, 1987)
Bakhtin entende a língua como diálogo. Ele não a concebe como um sistema fechado que se auto-explica, nem como uma mera expressão do psiquismo do sujeito. Para ele a língua é um lugar de interação humana, um lugar onde se entrecruzam valores sociais de orientação contrária.
Bakhtin considera empobrecedoras estas duas maneiras de conceber a língua, a qual é entendida pelo autor como um lugar de interação humana e, por isso, nos limites de sua proposta teórica, não há espaços para entendê-la como um ato individual, tampouco como uma estrutura fechada em si. Assim, entende a interação humana como “uma arena [...] onde se entrecruzam e lutam os valores sociais de orientação contraditória” (p. 66). (Bakhtin, 1981 apud Dieb e Araújo, 2010)
A visão de Bakhtin conjugada com a visão freireana de educação nos sugere que o processo de ensino e aprendizagem deve ser dialógico, pois seu carro-chefe é a palavra e esta é diálogo por excelência. Mas não foi isso que o educador brasileiro percebeu em sua passagem pela terra. Freire viu que a educação a qual ele chamou de bancária se funda na criação de mitos, no autoritarismo, no monólogo e na concepção mecânica de educação, ou seja, somos enquanto aprendente um depósito de narrativas do mundo, o mundo do outro, e este outro, representado pelo professor, tão alienado quanto o seu discípulo, é o dominador. (Freire, 1987), (Bakhtin, 1981 apud Dieb e Araújo, 2010)
Neste breve ensaio sobre educação dialógica não há a intenção de expor o cruzamento de idéias ente Bakhtin e Freire de forma aprofundada. Nossa pretensão é modesta. No entanto, não posso desconsiderar que tanto um quanto o outro viram a hierarquia do discurso. A semelhança de Foucault, Bakhtin e Freire viram que embora os discursos, não importando seu gênero, se digladiam, se refutam, se afirmam, se negam. Os discursos são como muitas vozes no mundo, são enunciados. O hospedeiro do dominador não o percebe, mas, repassa sua voz adiante, desta forma a ordem do discurso é a do dominador, pois, sua fala não lhe foi roubada, contudo, para Freire esse dominador se anula ao anular o dominado, o mesmo pensa Bakhtin, uma vez que se falo, falo para o outro, se outro não pode falar, eu não existo enquanto ser falante; estou só no mundo.
Nos embates da interação, os sujeitos se instauram a si próprios na medida em que não há uma proeminência de um sobre o outro e, por isso, ambos se revestem de uma postura responsiva ativa (BAKHTIN, [1953] 2000). (Bakhtin, 1981 apud Dieb e Araújo, 2010)
Na verdade Bakhtin não diz que existe hierarquia quanto ao discurso. O discurso, para ele, é polifônico. São muitas vozes no mundo e que a realidade é constituída de vozes que estão nos dizendo constantemente do mundo. Por esta causa não deve haver um discurso se impondo sobre o outro e que o professor deve ter cuidado de não deixar isto acontecer em sala de aula. Uma vez que todos os discursos nos falam do mundo cabe ao professor ter a capacidade de oportunizar ao seu alunado a maior quantidade possível de discursos. Pois assim, seus alunos terão acesso a diferentes visões da realidade. Roubar a fala do outro, na visão de Freire, seria não dar ao educando a capacidade de expressar o seu próprio discurso para que este tenha a oportunidade de conhecer o que sabe de seu mundo.
Assim meus caros, se o discurso é polifônico e a educação comporta diferentes discursos, podemos inferir, então, que o dialogismo freireano é polifônico. Sendo assim, a musicalidade brega enquanto discurso, pode com toda certeza ser usada em sala de aula nos cursos de produção textual nas séries do ensino médio. Isso se sustenta porque a música brega comporta diferentes discursos e por isso diferentes visões de mundo, e isso ocorre de tal forma que Sousa e Leite dizem que se torna muito difícil a classificação desse gênero musical:
Acreditamos que é devido a essas sucessões ambíguas, instáveis e incessantemente re-combinatórias que encontrarmos profundas dificuldades em definirmos com clareza e exatidão, gêneros musicais como a música brega, por exemplo. Esse universo musical está sempre disposto a se transformar, agregando ao seu repertório, uma rede extensa e complexa de referências musicais oriundas de diversas fontes, possibilitando compor em seu universo musical uma heterogeneidade de estilos musicais com o seu hibridismo cultural, o que termina por nos dificultar delimitar com clareza o que seria de fato, a música brega. (Sousa e Leite, Música brega: Um fantasma visível, 2009)
Ademais não resta dúvida quanto à facilidade de sua textualidade. A música brega é considerada brega por alguns porque possui linguagem “chula”; acredito que esta classificação é equivocada, mas, contudo, não deixa de ter uma verdade: Os textos bregas plasmam a língua do povo no papel. Sendo assim, usá-las como ponto de partida nas aulas de produção de texto e literatura seria muito interessante. Quanto ao uso do termo fácil nesse breve ensaio tem apenas efeito didático, pois, devo dizer que o termo em apreço é de difícil classificação no que tange ao léxico, afinal, o que é fácil enquanto palavra no léxico?
Ao compreender o brega como a cópia de um modelo e de um estilo, José (1991) descreve que nessa estética “as estruturas sonoras são organizadas e mantidas sem oposição, provocando nos ouvintes uma pasteurização em que todos os arranjos ganham um mesmo assobio”(p: 134). Outra característica da música brega se refere à simplicidade dos arranjos geralmente encontrados nessa música. Ao fazer uma introdução em seu livro sobre a música brega, Cabrera (2007) nos mostra que esse estilo musical se caracteriza pelas “rimas fáceis e palavras simples, num arranjo musical sem grandes elaborações” (2007, p.08). (Sousa e Leite, Música Brega: Um fantasma Visível, 2009)
Conclusão:
Não compartilhar da idéia de conspiração contra o pobre não é uma virtude, do mesmo modo, acreditar que ela existe não é um defeito. Existem sistemas e discursos que legitimiza uma determinada realidade. Sistemas que educam seres humanos de acordo com sua visão de mundo e os tornam presas fáceis de seus monstros ocultos em seus meandros, becos e vielas. No que concerne a nossa Educação, a História da mesma já nos dá uma grande ajuda para entendê-la. Fica aqui uma pergunta: Se temos acesso a tantas teorias e métodos, por que a nossa educação não nos atende a necessidade premente de nosso país: Consciência crítica? Quem sabe iniciando uma prática de leitura e redação com temas que falam de nossas angustias, manias e fobias, e nos revelam nossa cara bem popular com cheiro de sabão e perfume barato, ou até mesmo o velho francês, nosso proletariado não consiga engatinhando pronunciar o mundo?
REFERÊNCIAS:
Freire, Paulo pedagogia do oprimido, 13ª. Ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987
WWW.julioaraujo.com/download/artigo10.pdf
Souza, Vinícius Rodrigues Alves; Leite, Reuel Machado. Música Brega : Um fantasma Visível. (Artigo apresentado no Seminário de Estudos Culturais e Relações Interétinicas. UFS, 2009)
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quinta-feira, 26 de maio de 2011
sábado, 21 de maio de 2011
Angustias
Angustias
A casa tinha um pingo d’água gotejante do telhado da sala.
O pingo d’água era da casa uma constante e intermitente perturbação.
Havia um balde na sala, nele a água do pingo se aquietava após sua tortura não intencional.
A sala estava vazia, móveis empoeirados, somente lembranças.
Sua atmosfera era quieta, sossegada no passado que fora.
Somente os bichos e insetos desfilam pelo caminho.
Eu estive lá.
Minha vida esteve lá.
Meus amigos estiveram lá.
Meus inimigos desfilaram mascarados pelos cômodos em trajes de gala.
Tudo parece o que era; uma casa.
Poderia ter sido a tua.
Poderia ter sido destruída pelo tempo.
Mas a casa ainda está lá.
Não há moradores;
Só gemidos nas paredes.
Ninguém me aluga!
Aqui é lugar de dores!
Vou ficar velha caduca!
Sou mulher estrupada nas noites solitárias.
Defecam aqui como se eu fosse um sanitário.
Sou um covil de ninguém travestido de gente que mora na rua.
Pobre de mim; estou nua!
Espere!
Alguém bate à porta.
Ouço o barulho de seres humanos.
A menina pensava ser amada.
Seu corpo despido sobre os lençóis sujos;
Esperava ser acariciado.
Uma seringa, duas seringas.
Conversas sem sentido.
Nada de sexo.
Pequenas feridas.
Roxas picadas em pele branca de gente granfina.
Despede-se da vida a pobre namorada em uma casa abandonada.
Seus amigos dizem:
Sei lá onde!
Mas, eu...
Eu já estive lá!
A casa tinha um pingo d’água gotejante do telhado da sala.
O pingo d’água era da casa uma constante e intermitente perturbação.
Havia um balde na sala, nele a água do pingo se aquietava após sua tortura não intencional.
A sala estava vazia, móveis empoeirados, somente lembranças.
Sua atmosfera era quieta, sossegada no passado que fora.
Somente os bichos e insetos desfilam pelo caminho.
Eu estive lá.
Minha vida esteve lá.
Meus amigos estiveram lá.
Meus inimigos desfilaram mascarados pelos cômodos em trajes de gala.
Tudo parece o que era; uma casa.
Poderia ter sido a tua.
Poderia ter sido destruída pelo tempo.
Mas a casa ainda está lá.
Não há moradores;
Só gemidos nas paredes.
Ninguém me aluga!
Aqui é lugar de dores!
Vou ficar velha caduca!
Sou mulher estrupada nas noites solitárias.
Defecam aqui como se eu fosse um sanitário.
Sou um covil de ninguém travestido de gente que mora na rua.
Pobre de mim; estou nua!
Espere!
Alguém bate à porta.
Ouço o barulho de seres humanos.
A menina pensava ser amada.
Seu corpo despido sobre os lençóis sujos;
Esperava ser acariciado.
Uma seringa, duas seringas.
Conversas sem sentido.
Nada de sexo.
Pequenas feridas.
Roxas picadas em pele branca de gente granfina.
Despede-se da vida a pobre namorada em uma casa abandonada.
Seus amigos dizem:
Sei lá onde!
Mas, eu...
Eu já estive lá!
sexta-feira, 29 de abril de 2011
VENTANIA E MARIANA
VENTANIA E MARIANA.
Uma estória cotidiana de amor...
Laranjeiras era parada obrigatória de muitos vendedores de escravos. A antiga terra de Sergipe Del Rei era lugar de muito dinheiro e de movimento de muita gente. As pessoas passavam por lá vindo de muitos outros lugares. Algumas delas deixavam suas vidas, outras nem souberam por que ficaram por lá. Laranjeiras era também parada de muitos contadores de estórias. Dona Marocas era uma delas. Essa mulher viveu na laranjeiras do início do século vinte. Era filha de agricultores que juntaram uns trocados e foram morar na sede. Dona Marocas estudou o curso normal em Aracaju e depois foi ser professora na rede pública. Maroquinha como muitos a chamavam era uma contadora de estórias de todos os tipos e para todas as idades. Ninguém nunca soube ao certo como tudo começou. Diz-se que ela sentiu uma forte dor de cabeça e depois de quatro dias de cama saiu contando de tudo.
- Marocas, mulher, tenha fé em deus! Pare de falar tanta coisa! Estou sem suportar!
- Você sabia o que houve no alto da igreja do Bonfim em 1882?
- O que é que eu tenho a ver com isso? Respondeu sua irmã mais velha irritada.
- Foi o Ventania mulher! Ele beijou Mariana lá no alto na noite da missa de Reis.
- Sabe, Marocas, não suporto mais tuas estória imbecis. Disse sua irmã. O tempo passou e Marocas tornou-se Maroquinha da tapioca. Da tapioca porque seu finado esposo vendia requeijão e outros produtos dentre eles a tão falada tapioca de dona Maroquinha, agora uma senhora aposentada da sala de aula. Dona Marocas era uma mulher fora de qualquer suspeita. Uma professora que se dedicou a educação de jovens e adultos por toda sua juventude. De volta a sua terra em meados de 1964 em uma praça de sua cidade natal ela se deparou com um grupo de jovens jogando capoeira.
- Meninos já contei para vocês a estória de Ventania?
- Não, tia Marocas ainda não!
- Vocês querem que eu conte um dia?
- Sim, sim, dona Maroquinha! Conte hoje de tardinha!
- Tá bom, tá combinado, de tardinha eu volto aqui e conto, mas juntem mais rapazes.
- Certo!
Dona Marocas continuou sua estrada até a casa velha do engenho. Era estranho, mas a velha gostava demais daquele lugar. Ali ela passou a manhã, lendo e olhando o tempo, depois foi para casa. Próximo ao prédio que hoje é a Universidade, Marocas tombou ao chão, virou-se em torno de seu corpo e olhou para cima. Todos estavam lá lhe olhando os olhos. Uns diziam uma coisa, outros diziam outras coisas. E havia aqueles que nada diziam, eram apenas curiosos.
- O que houve com a velha professora?
- Não sei, eu estava aqui e ela caiu sozinha.
- E foi, parece coisa feita!
- Uma mulher idosa, mas cheia de saúde.
- É sim, veja como ela está corada!
- Pois num é mulher, e se ela morrer; vamos ficar sem a tapioca dela.
- O pior é que eu gosto muito de suas estórias.
- Dona Marocas, dona Marocas!
Marocas acordou falando sobre o que viu perto do engenho. Dizia ela que Ventania se encontrava com Mariana nas ruínas do engenho velho. Os dois se amavam muito. Um amor que custou muito caro a ambos. Os negros sempre levavam seus donos nas costas. Um dia Ventania levava o coronel Zé Maria e sua mulher, Catarina, à Igreja do Bonfim, era missa de Reis. No alto, bem no oitão da Igreja Ventania beijou Mariana a primeira vez. Os dois já estavam se olhando a tempo. Quando Mariana viu que o negro havia chegado com seus pais no alto do morro, e sabendo que ele ia dar uma descansada atrás da Igreja, furtivamente, a moça passou por todos e chegou ao moço. Este estava de cabeça baixa olhando a silhueta da cidade lá embaixo. Ela diz:
- José?
- Sim.
- É você? Tá bem?
- Sinhazinha já viu argum negro bem?
- Não se revolte Ventania! Tem gente aqui que gosta muito de você. Os olhos de Mariana se entregaram na primeira olhada. O rapaz hesitou por um pouco, mas depois assumiu seu amor. Ele a beijou com intensa paixão. O desejo de ambos extrapolava o limite que a vida os dava. Os dois estavam presos um ao outro pela força do amor.
- Dona Marocas, continue a nos contar esta estória!
- Qual? Meus filhos.
- A de Seu Ventania e Mariana.
- Ah, sim. Era noite em laranjeiras todos estavam na Santa Missa de Reis. Era o ano de 1879. Laranjeiras estava cheia de filhos ilustres que haviam voltado de outras terras. O coronel Zé Maria discutia com seus amigos sobre não abolir os escravos. A cidade tomaria um baque muito grande.
- O que vamos fazer com a lavoura? Esses abolicionistas!
- Eh, seu coronel, o senhor fala em nome de todos nós, homens de bem desta terra. O que será do Cotinguiba sem a mão escrava?
- Pois é. Por isso é preciso eleger logo um deputado que lute junto ao Imperador mostrando-lhe os perigos que estamos correndo, nós e seu império. O Brasil sempre será escravista e pronto, as coisas sempre foram assim e nós da lavoura, nós que produzimos as riquezas deste país, dizemos não a José do Patrocínio e sua corja. Falou o coronel com muita firmeza.
Ventania e Mariana não se deram conta que algumas pessoas que estavam na Missa dos Reis os viram beijando-se. Pouco tempo depois a estória correu pela pequena Laranjeiras. “A filha de Zé Maria estava a beijar-se com o escravo do mesmo chamado Ventania. Dizem que este é um capoeira muito perigoso. Isso lhe justifica o nome”.
- Eu não garanto por que não vi, mas dizem que dona Mariana namora um negro do coronel.
- Também escutei isso Floresval. Mas e qual é o problema, o amor é lindo. Falou Maria do Amparo.
- Não sei não, acho que vai sobrar para o negro.
Ventania foi preso na quarta feira da outra semana após a festa dos Reis. Dois jagunços do coronel foram à senzala e trouxeram o rapaz. Zé Maria colocou o negro três dias no tronco. Enquanto isso pensaria no que era mais justo. Mariana nada sabia até que seu pai a chamou.
- Mariana, minha filha. Disse o coronel Zé Maria ao ver sua filha entrar no recinto.
- Sim, meu pai, o senhor me chamou? Respondeu Mariana.
- Você está crescendo, eu acho melhor providenciar um marido para você. Disse seu pai com ar de preocupado.
- O senhor está preocupado com uma coisa que eu nem me lembro. Não penso em casar agora. Penso em estudar.
- Mariana! Não seja tola! Você acha que estudar é coisa de mulher?
- Acho que todos são iguais, homens e mulheres, negros e brancos.
- De preferência o da senzala de seu pai, não é?
Mariana ficou sem jeito perante seu pai e sentou-se de cabeça baixa. Zé Maria havia ferido sua presa no ponto fraco. Mariana amava José, o Ventania, e agora ela sabia que seu pai os separaria.
- O que o senhor vai fazer com ele?
- Isso não é de sua conta, mas vocês não se verão mais, entendeu?
- Sim, certo. Respondeu Mariana com a voz rouca de tristeza. Aquele dia fora o pior da vida daquela princesinha. Mariana era uma princesa em Laranjeiras, era isso que o povo dizia. Seu coração era bom, e seu jeito amável de ser, conquistava logo as pessoas. O povo dividiu-se em torno da estória de amor proibido. Mariana casa ou não com o José Ventania, escravo de seu pai? Enquanto dona Marocas contava a estória o povo ficava embriagado com suas palavras e as pessoas aos poucos iam procurando um lugar perto da velhinha contadora de estórias.
- Agora, essa parte de nossa estória se torna mais triste, eu comparo isso ao sofrimento de Nosso Senhor. O coronel mandou pôr o Zé Ventania na praça principal para ser punido em público como exemplo e teve o apoio do padre e do juiz da comarca. “A disciplina deve ser severa para que este caso não se repita com outras pessoas”. Ventania apanhou por trinta minutos sob o olhar de toda a cidade, brancos e negros. As prostitutas da casa de bordel que ficava atrás do mercado choravam e gritavam enquanto Ventania agoniza ante o peso da chibata. Após o açoite, os homens do coronel o levaram de volta para a senzala. A mente de Ventania manteve firme a imagem do momento do beijo. O cheiro da moça ainda enchia o olfato do rapaz. “Parece que o amor não tem cor, você não acha dona Marocas”. Perguntou um rapaz magro de cabelo ruivo.
- É meu filho. O amor uniu os dois mesmo estando em lados opostos, agora a sina do destino os alcançaria no fim de 1882.
-Como assim tia Marocas?
O ano se passou. Mariana não casou e foi estudar com as freiras. Ventania foi vendido para uma fazenda em Alagoas, uma fazenda de um amigo de Zé Maria. Era o tal coronel Manoel Ferreira. Um homem muito poderoso em Alagoas e aliado dos monarquistas. Ventania passou esses três anos pensando em um jeito de fugir e roubar Mariana da casa do coronel. Não sei como, esta parte da estória nunca foi bem contada. Mas, o povo mais velho dizia que Ventania fez pacto com o coisa ruim. Havia na senzala um Babalaô; Babalaô é um tipo especial de sacerdote do culto negro. O seu nome era Joaquim. Pai Joaquim, como todos o chamavam. Pai Joaquim havia visto nos olhos de Ifá que Ventania veria Mariana novamente, “e o destino seguia seu curso como a corrente de um rio”.
- Bem, eu não sei de nada, mas o tal Joaquim era um feiticeiro velho, mexia com o coisa. Falou espantada dona Marocas.
- Não fale sem saber mulher. Respondeu seu Martinz, um umbandista morador de Laranjeiras.
Ventania sumiu da senzala de Ferreira. Foi morar em um quilombo perto da barra dos coqueiros. O tempo passou e o capoeira resolveu visitar Laranjeiras. Era noitinha de 22 de outubro de 1882. Ventania de barba grande e cabelo de tranças caminha pelas calçadas de laranjeiras. Ele segue em direção a igreja do Bonfim, no meio do caminho ele rouba um cavalo preto como a sua cor e tão forte quanto ele, com ele estão dois outros capoeiras. Havia um culto lá no alto. Ventania sobe a maldita ladeira e fica a espreita para ver se encontra Mariana. Mariana estava dentro do santuário. Sua alma estava em paz na presença de Deus, mas sua intuição dizia que algo muito bom estava para acontecer, de fato, aconteceu, Ventania entra santuário adentro montado em um cavalo e aproxima-se de Mariana e diz a moça: “Mariana, venha comigo, e seremos felizes”. A jovem moça foi embora com o negro na frente de seus pais e de toda a sociedade. Nunca se sabe o que um coração apaixonado pode fazer. Ventania deixou dois amigos do lado de fora caso houvesse tiros, e de fato, um dos capangas do coronel atirou para cima por que temeu acertar o tiro em Mariana. Na mesma noite, os dois tomaram uma condução para São Cristovão. Pernoitaram lá e depois desapareceram no mundo como fugitivos. Zé Maria chorou muito a perca de sua filha, principalmente pela forma como tudo aconteceu, a mãe de Mariana, se apegou com o seu santo até o dia que o divino a levou de volta para o lar celestial.
- O que aconteceu com Mariana dona Marocas?
- Ah, meu filho, você não perde por esperar, mas essa estória é muito bela.
Mariana e Ventania foram morar em Rio Real. Naquela época a cidade era acanhada, mas a semelhança de Laranjeiras tinha muito o que se fazer lá, mesmo para um negro recém alforriado como Ventania, digamos, alforriado por imposição. Ventania colocava água nas casas e Mariana costurava para as pessoas. Fazia remendos a princípio, depois o povo se apegou ao seu trabalho e foram procurando a moça. O lar deles, apesar das diferenças várias entre eles, era feliz. Os filhos foram aparecendo. Deus, o divino os abençoou com três filhos. Duas mulheres e um rapaz. O rapaz nasceu primeiro, era o Leandro, e as meninas eram Catarina e Beatriz. A vida de Mariana e Ventania foi como a de todos. O amor era grande. Os anos passam e com eles o implacável peso da idade chega. Ventania morreu primeiro. Deu uma dor nas costas e dessa dor, o negro arriou. Mariana ainda viveu uns dias. Quando Catarina sua filha teve o primeiro neto Mariana ainda pensava em José Ventania. Ela morreu e nunca se arrependeu do que fez.
- Que estória esquisita dona Marocas! Chega me arrepiei toda. Disse a menina Flavinha, filha de seu Amarante.
- É, minha filha quando eu tinha sua idade, eu costumava ver um velho contando essa estória. Um dia me aproximei dele e perguntei qual era o nome dele. Então ele disse:
- Por que vosmercê pergunta meu nome?
- Por que acho que já te vi em algum lugar.
- Fia carece saber o que?
- Só o seu nome.
- Olhe minha fia, no dia que Ventania chegou à senzala de Manoel Ferreira, eu sabia que ele era filho de Ogum. Sua mãe era Oxum, então, ele estava com a espada de Ogum e o amor de Oxum com ele. Eu entreguei a ele o oráculo e disse que sua vida seria como qualquer uma sobre a terra. E não foi assim? Ninguém espere nada além do que a terra pode dar, pois o que é, é isso. A cidade de Laranjeiras cresceu. Muita coisa mudou. Não tem mais dona Marocas. A igreja do Bonfim ainda está lá. As ruínas do engenho velho também.
Uma estória cotidiana de amor...
Laranjeiras era parada obrigatória de muitos vendedores de escravos. A antiga terra de Sergipe Del Rei era lugar de muito dinheiro e de movimento de muita gente. As pessoas passavam por lá vindo de muitos outros lugares. Algumas delas deixavam suas vidas, outras nem souberam por que ficaram por lá. Laranjeiras era também parada de muitos contadores de estórias. Dona Marocas era uma delas. Essa mulher viveu na laranjeiras do início do século vinte. Era filha de agricultores que juntaram uns trocados e foram morar na sede. Dona Marocas estudou o curso normal em Aracaju e depois foi ser professora na rede pública. Maroquinha como muitos a chamavam era uma contadora de estórias de todos os tipos e para todas as idades. Ninguém nunca soube ao certo como tudo começou. Diz-se que ela sentiu uma forte dor de cabeça e depois de quatro dias de cama saiu contando de tudo.
- Marocas, mulher, tenha fé em deus! Pare de falar tanta coisa! Estou sem suportar!
- Você sabia o que houve no alto da igreja do Bonfim em 1882?
- O que é que eu tenho a ver com isso? Respondeu sua irmã mais velha irritada.
- Foi o Ventania mulher! Ele beijou Mariana lá no alto na noite da missa de Reis.
- Sabe, Marocas, não suporto mais tuas estória imbecis. Disse sua irmã. O tempo passou e Marocas tornou-se Maroquinha da tapioca. Da tapioca porque seu finado esposo vendia requeijão e outros produtos dentre eles a tão falada tapioca de dona Maroquinha, agora uma senhora aposentada da sala de aula. Dona Marocas era uma mulher fora de qualquer suspeita. Uma professora que se dedicou a educação de jovens e adultos por toda sua juventude. De volta a sua terra em meados de 1964 em uma praça de sua cidade natal ela se deparou com um grupo de jovens jogando capoeira.
- Meninos já contei para vocês a estória de Ventania?
- Não, tia Marocas ainda não!
- Vocês querem que eu conte um dia?
- Sim, sim, dona Maroquinha! Conte hoje de tardinha!
- Tá bom, tá combinado, de tardinha eu volto aqui e conto, mas juntem mais rapazes.
- Certo!
Dona Marocas continuou sua estrada até a casa velha do engenho. Era estranho, mas a velha gostava demais daquele lugar. Ali ela passou a manhã, lendo e olhando o tempo, depois foi para casa. Próximo ao prédio que hoje é a Universidade, Marocas tombou ao chão, virou-se em torno de seu corpo e olhou para cima. Todos estavam lá lhe olhando os olhos. Uns diziam uma coisa, outros diziam outras coisas. E havia aqueles que nada diziam, eram apenas curiosos.
- O que houve com a velha professora?
- Não sei, eu estava aqui e ela caiu sozinha.
- E foi, parece coisa feita!
- Uma mulher idosa, mas cheia de saúde.
- É sim, veja como ela está corada!
- Pois num é mulher, e se ela morrer; vamos ficar sem a tapioca dela.
- O pior é que eu gosto muito de suas estórias.
- Dona Marocas, dona Marocas!
Marocas acordou falando sobre o que viu perto do engenho. Dizia ela que Ventania se encontrava com Mariana nas ruínas do engenho velho. Os dois se amavam muito. Um amor que custou muito caro a ambos. Os negros sempre levavam seus donos nas costas. Um dia Ventania levava o coronel Zé Maria e sua mulher, Catarina, à Igreja do Bonfim, era missa de Reis. No alto, bem no oitão da Igreja Ventania beijou Mariana a primeira vez. Os dois já estavam se olhando a tempo. Quando Mariana viu que o negro havia chegado com seus pais no alto do morro, e sabendo que ele ia dar uma descansada atrás da Igreja, furtivamente, a moça passou por todos e chegou ao moço. Este estava de cabeça baixa olhando a silhueta da cidade lá embaixo. Ela diz:
- José?
- Sim.
- É você? Tá bem?
- Sinhazinha já viu argum negro bem?
- Não se revolte Ventania! Tem gente aqui que gosta muito de você. Os olhos de Mariana se entregaram na primeira olhada. O rapaz hesitou por um pouco, mas depois assumiu seu amor. Ele a beijou com intensa paixão. O desejo de ambos extrapolava o limite que a vida os dava. Os dois estavam presos um ao outro pela força do amor.
- Dona Marocas, continue a nos contar esta estória!
- Qual? Meus filhos.
- A de Seu Ventania e Mariana.
- Ah, sim. Era noite em laranjeiras todos estavam na Santa Missa de Reis. Era o ano de 1879. Laranjeiras estava cheia de filhos ilustres que haviam voltado de outras terras. O coronel Zé Maria discutia com seus amigos sobre não abolir os escravos. A cidade tomaria um baque muito grande.
- O que vamos fazer com a lavoura? Esses abolicionistas!
- Eh, seu coronel, o senhor fala em nome de todos nós, homens de bem desta terra. O que será do Cotinguiba sem a mão escrava?
- Pois é. Por isso é preciso eleger logo um deputado que lute junto ao Imperador mostrando-lhe os perigos que estamos correndo, nós e seu império. O Brasil sempre será escravista e pronto, as coisas sempre foram assim e nós da lavoura, nós que produzimos as riquezas deste país, dizemos não a José do Patrocínio e sua corja. Falou o coronel com muita firmeza.
Ventania e Mariana não se deram conta que algumas pessoas que estavam na Missa dos Reis os viram beijando-se. Pouco tempo depois a estória correu pela pequena Laranjeiras. “A filha de Zé Maria estava a beijar-se com o escravo do mesmo chamado Ventania. Dizem que este é um capoeira muito perigoso. Isso lhe justifica o nome”.
- Eu não garanto por que não vi, mas dizem que dona Mariana namora um negro do coronel.
- Também escutei isso Floresval. Mas e qual é o problema, o amor é lindo. Falou Maria do Amparo.
- Não sei não, acho que vai sobrar para o negro.
Ventania foi preso na quarta feira da outra semana após a festa dos Reis. Dois jagunços do coronel foram à senzala e trouxeram o rapaz. Zé Maria colocou o negro três dias no tronco. Enquanto isso pensaria no que era mais justo. Mariana nada sabia até que seu pai a chamou.
- Mariana, minha filha. Disse o coronel Zé Maria ao ver sua filha entrar no recinto.
- Sim, meu pai, o senhor me chamou? Respondeu Mariana.
- Você está crescendo, eu acho melhor providenciar um marido para você. Disse seu pai com ar de preocupado.
- O senhor está preocupado com uma coisa que eu nem me lembro. Não penso em casar agora. Penso em estudar.
- Mariana! Não seja tola! Você acha que estudar é coisa de mulher?
- Acho que todos são iguais, homens e mulheres, negros e brancos.
- De preferência o da senzala de seu pai, não é?
Mariana ficou sem jeito perante seu pai e sentou-se de cabeça baixa. Zé Maria havia ferido sua presa no ponto fraco. Mariana amava José, o Ventania, e agora ela sabia que seu pai os separaria.
- O que o senhor vai fazer com ele?
- Isso não é de sua conta, mas vocês não se verão mais, entendeu?
- Sim, certo. Respondeu Mariana com a voz rouca de tristeza. Aquele dia fora o pior da vida daquela princesinha. Mariana era uma princesa em Laranjeiras, era isso que o povo dizia. Seu coração era bom, e seu jeito amável de ser, conquistava logo as pessoas. O povo dividiu-se em torno da estória de amor proibido. Mariana casa ou não com o José Ventania, escravo de seu pai? Enquanto dona Marocas contava a estória o povo ficava embriagado com suas palavras e as pessoas aos poucos iam procurando um lugar perto da velhinha contadora de estórias.
- Agora, essa parte de nossa estória se torna mais triste, eu comparo isso ao sofrimento de Nosso Senhor. O coronel mandou pôr o Zé Ventania na praça principal para ser punido em público como exemplo e teve o apoio do padre e do juiz da comarca. “A disciplina deve ser severa para que este caso não se repita com outras pessoas”. Ventania apanhou por trinta minutos sob o olhar de toda a cidade, brancos e negros. As prostitutas da casa de bordel que ficava atrás do mercado choravam e gritavam enquanto Ventania agoniza ante o peso da chibata. Após o açoite, os homens do coronel o levaram de volta para a senzala. A mente de Ventania manteve firme a imagem do momento do beijo. O cheiro da moça ainda enchia o olfato do rapaz. “Parece que o amor não tem cor, você não acha dona Marocas”. Perguntou um rapaz magro de cabelo ruivo.
- É meu filho. O amor uniu os dois mesmo estando em lados opostos, agora a sina do destino os alcançaria no fim de 1882.
-Como assim tia Marocas?
O ano se passou. Mariana não casou e foi estudar com as freiras. Ventania foi vendido para uma fazenda em Alagoas, uma fazenda de um amigo de Zé Maria. Era o tal coronel Manoel Ferreira. Um homem muito poderoso em Alagoas e aliado dos monarquistas. Ventania passou esses três anos pensando em um jeito de fugir e roubar Mariana da casa do coronel. Não sei como, esta parte da estória nunca foi bem contada. Mas, o povo mais velho dizia que Ventania fez pacto com o coisa ruim. Havia na senzala um Babalaô; Babalaô é um tipo especial de sacerdote do culto negro. O seu nome era Joaquim. Pai Joaquim, como todos o chamavam. Pai Joaquim havia visto nos olhos de Ifá que Ventania veria Mariana novamente, “e o destino seguia seu curso como a corrente de um rio”.
- Bem, eu não sei de nada, mas o tal Joaquim era um feiticeiro velho, mexia com o coisa. Falou espantada dona Marocas.
- Não fale sem saber mulher. Respondeu seu Martinz, um umbandista morador de Laranjeiras.
Ventania sumiu da senzala de Ferreira. Foi morar em um quilombo perto da barra dos coqueiros. O tempo passou e o capoeira resolveu visitar Laranjeiras. Era noitinha de 22 de outubro de 1882. Ventania de barba grande e cabelo de tranças caminha pelas calçadas de laranjeiras. Ele segue em direção a igreja do Bonfim, no meio do caminho ele rouba um cavalo preto como a sua cor e tão forte quanto ele, com ele estão dois outros capoeiras. Havia um culto lá no alto. Ventania sobe a maldita ladeira e fica a espreita para ver se encontra Mariana. Mariana estava dentro do santuário. Sua alma estava em paz na presença de Deus, mas sua intuição dizia que algo muito bom estava para acontecer, de fato, aconteceu, Ventania entra santuário adentro montado em um cavalo e aproxima-se de Mariana e diz a moça: “Mariana, venha comigo, e seremos felizes”. A jovem moça foi embora com o negro na frente de seus pais e de toda a sociedade. Nunca se sabe o que um coração apaixonado pode fazer. Ventania deixou dois amigos do lado de fora caso houvesse tiros, e de fato, um dos capangas do coronel atirou para cima por que temeu acertar o tiro em Mariana. Na mesma noite, os dois tomaram uma condução para São Cristovão. Pernoitaram lá e depois desapareceram no mundo como fugitivos. Zé Maria chorou muito a perca de sua filha, principalmente pela forma como tudo aconteceu, a mãe de Mariana, se apegou com o seu santo até o dia que o divino a levou de volta para o lar celestial.
- O que aconteceu com Mariana dona Marocas?
- Ah, meu filho, você não perde por esperar, mas essa estória é muito bela.
Mariana e Ventania foram morar em Rio Real. Naquela época a cidade era acanhada, mas a semelhança de Laranjeiras tinha muito o que se fazer lá, mesmo para um negro recém alforriado como Ventania, digamos, alforriado por imposição. Ventania colocava água nas casas e Mariana costurava para as pessoas. Fazia remendos a princípio, depois o povo se apegou ao seu trabalho e foram procurando a moça. O lar deles, apesar das diferenças várias entre eles, era feliz. Os filhos foram aparecendo. Deus, o divino os abençoou com três filhos. Duas mulheres e um rapaz. O rapaz nasceu primeiro, era o Leandro, e as meninas eram Catarina e Beatriz. A vida de Mariana e Ventania foi como a de todos. O amor era grande. Os anos passam e com eles o implacável peso da idade chega. Ventania morreu primeiro. Deu uma dor nas costas e dessa dor, o negro arriou. Mariana ainda viveu uns dias. Quando Catarina sua filha teve o primeiro neto Mariana ainda pensava em José Ventania. Ela morreu e nunca se arrependeu do que fez.
- Que estória esquisita dona Marocas! Chega me arrepiei toda. Disse a menina Flavinha, filha de seu Amarante.
- É, minha filha quando eu tinha sua idade, eu costumava ver um velho contando essa estória. Um dia me aproximei dele e perguntei qual era o nome dele. Então ele disse:
- Por que vosmercê pergunta meu nome?
- Por que acho que já te vi em algum lugar.
- Fia carece saber o que?
- Só o seu nome.
- Olhe minha fia, no dia que Ventania chegou à senzala de Manoel Ferreira, eu sabia que ele era filho de Ogum. Sua mãe era Oxum, então, ele estava com a espada de Ogum e o amor de Oxum com ele. Eu entreguei a ele o oráculo e disse que sua vida seria como qualquer uma sobre a terra. E não foi assim? Ninguém espere nada além do que a terra pode dar, pois o que é, é isso. A cidade de Laranjeiras cresceu. Muita coisa mudou. Não tem mais dona Marocas. A igreja do Bonfim ainda está lá. As ruínas do engenho velho também.
terça-feira, 29 de março de 2011
QUASE NA HORA
QUASE NA HORA
Uma psicografia
As portas do Centro estavam abertas. As pessoas estavam em um pequeno salão defronte ao Gongá. Não havia silêncio perfeito, aquele que é exigido em sessões como aquela, contudo, o clima era de muito respeito. Esperei o momento de tomar o aparelho para os trabalhos da noite. Ele estava muito cansado e a quantidade de pessoas na fila era um número bem significante. Apiedei-me do rapaz e não permiti que os obsessores, que eram muitos, chegassem mais perto dele, salvo um senhor que falecera queimado em um acidente de caminhão. A instituição que se propôs receber-nos necessita de uma reforma moral para que a nossa presença não seja constantemente confrontada com os espíritos trevosos que escapam sorrateiramente pelos dedos de seus guardiões por causa da corrente mental viciada presente no ambiente mediúnico. Toda e qualquer ação que nos envolva deve ser ancorada na pedra fundamental da caridade e em uma vida evangélica que seja capaz de atrair mais fluido positivo de nossos irmãos afins do espaço. Fiquei muito feliz em encontrar a moça cigana que a muito havia se distanciado de seu aparelho. Nós espíritos prestadores de serviços em favor da pessoa humana não podemos agir fora de um contexto verdadeiramente cristão. Para tanto desenvolvam a leitura dos evangelhos e a prática da oração; liberem o perdão aos seus devedores e o amor, a maior de todas as virtudes. Fazendo assim, vossos olhos verão a grande bondade de Deus que cura tanto o corpo quanto a alma.
Gonzalles di Sanches
Tobias Barreto, 17 de agosto de 2009
Uma psicografia
As portas do Centro estavam abertas. As pessoas estavam em um pequeno salão defronte ao Gongá. Não havia silêncio perfeito, aquele que é exigido em sessões como aquela, contudo, o clima era de muito respeito. Esperei o momento de tomar o aparelho para os trabalhos da noite. Ele estava muito cansado e a quantidade de pessoas na fila era um número bem significante. Apiedei-me do rapaz e não permiti que os obsessores, que eram muitos, chegassem mais perto dele, salvo um senhor que falecera queimado em um acidente de caminhão. A instituição que se propôs receber-nos necessita de uma reforma moral para que a nossa presença não seja constantemente confrontada com os espíritos trevosos que escapam sorrateiramente pelos dedos de seus guardiões por causa da corrente mental viciada presente no ambiente mediúnico. Toda e qualquer ação que nos envolva deve ser ancorada na pedra fundamental da caridade e em uma vida evangélica que seja capaz de atrair mais fluido positivo de nossos irmãos afins do espaço. Fiquei muito feliz em encontrar a moça cigana que a muito havia se distanciado de seu aparelho. Nós espíritos prestadores de serviços em favor da pessoa humana não podemos agir fora de um contexto verdadeiramente cristão. Para tanto desenvolvam a leitura dos evangelhos e a prática da oração; liberem o perdão aos seus devedores e o amor, a maior de todas as virtudes. Fazendo assim, vossos olhos verão a grande bondade de Deus que cura tanto o corpo quanto a alma.
Gonzalles di Sanches
Tobias Barreto, 17 de agosto de 2009
A VIAJEM
A viajem
Era sábado e Ferreira estava na rodoviária de Tobias Barreto para fazer o que sempre fez aos sábados durante estes últimos 30 anos. Ferreira trabalhava para o Deso e morava em Tobias há trinta anos. Casou com uma moça da terra e nela ficou; fez filhos, criou-os e nunca deixou de jogar dominó em Riachão, sua terra de origem. De Riachão o rapaz nunca se esqueceu. Riachão é uma cidade pequena no centro do sul do estado de Sergipe Del Rei na divisa com a Vila de Campos. A torrezinha da Matriz se avista de longe quando nos aproximamos da pequena cidade da família Dantas. Não sei muito falar desse povo, mas, dizem os antigos, que foi gente muito grande nessas terras de abacaxi doce e bom. Ferreira comprou sua passagem e entrou no ônibus. Este vinha da Bahia às duas da tarde. Era o que fazia a linha Tobias/Aracaju às duas e quinze. O ônibus só atrasava quando a estrada de Itapicurú estava ruim, caso contrário, era muito pontual. Ferreira ao entrar nem percebeu que o carro estava quase vazio, havia poucos passageiros. O costume era nem achar vagas, os carros ficam em menor quantidade no sábado. Um senhor de cabelos grisalhos, pele branca escandinava, olhos azuis e feições nórdicas senta no banco, abre a janela e observa o movimento no Terminal Rodoviário da antiga Vila de Campos. Naquela época a rodoviária situava-se próximo a ponte que divide os dois estados, Sergipe e Bahia. As pessoas colocavam caixas no ônibus, outros conversavam coisas triviais, e assim a cena corria como se tudo que vemos fosse verdade. Tudo estava no seu lugar. E Ferreira também. O rapaz de Riachão pegou no sono esperando o carro sair. Quando o ônibus inicia seu movimento de manobra para sair do terminal Ferreira acorda e volta sua atenção para as pessoas que estão no curso do ônibus, nas calçadas, em frente às lojas. O mundo parece muito normal. Sua pequena viajem rotineira havia iniciado. O interior do veículo fora tomado por um silêncio não habitual. Ferreira olhou as poltronas até onde a vista deu para ver, a quantidade de pessoas era muito pouca. Pensou consigo: “Milagre, pelo menos durmo uns vinte minutos antes de chegar a Riachão”. Fechou os olhos e dormiu. Mas desta feita seu sono foi muito rápido, pois o carro parou no posto de gasolina na saída da cidade para entrar uma senhora com um tabuleiro de acarajé. A moça põe as coisas com a ajuda do cobrador e a viajem reinicia rumo a Aracaju, e no caso do nosso Ferreira, a Riachão. Todos estavam sentados, a estrada estava boa. O dia estava claro. E ferreira estava cochilando com a cabeça encostada do lado direito do carro, o lado que à tarde faz sombra.
- Meninos venham para casa! Gritou dona Franquislane. As crianças correram para dentro de casa, e Franquislane fechou à porteira; era a hora do almoço.
- Meninos, lavaram as mãos?
- Não, mãe, não! Gritaram de volta a meninada.
- Então corram e lavem-se, é mal feito comer com as mãos sujas. A turma toda foi e voltou em um raio. Em cinco minutos todos rezavam a Ave-Maria com a senhora de 45 anos chamada Franquislane. Esta era uma mulher maravilhosa. Bisneta de holandeses que vieram para Sergipe; Franquislane tinha muito para ensinar a seus filhos sobre como viver a vida na prudência dos sábios. Dona Franquislane era da Igreja Luterana, como esta não tinha em Riachão, ela freqüentava a Igreja Católica.
- Agradeçam a Deus pelo pão e comam! Disse Franquislane.
O ônibus parou perto do “pau preto” para um homem entrar. Era um senhor de chapéu preto com a aba um tanto torta na frente. O homem tinha a cara fechada e não saldou a ninguém; ele entrou e sentou sumindo em sua poltrona. O motorista acelera e acorda novamente a Ferreira. Este abre os olhos e avista a Serra da Praça do seu lado direito. “Belos dias de infância”. Pensou consigo o jogador de dominó. Ele olhou para seu relógio e percebe que havia se passado mais de uma hora e nada de Riachão. Ele não havia chegado se quer ao entroncamento do Campestre. “O que foi, será que o relógio está parado ou algum problema, quebrou?” Pensou Ferreira. Olhou para o chão, coçou a testa, encostou a cabeça na poltrona, e se entregou novamente aos cuidados do motorista baiano que iria cruzar Sergipe de sul a norte. A viajem prosseguiu pelas estradas de Campos de Nossa Senhora Imperatriz.
- Você não sabe montar Ferreira? Nem sabe! Disse Everaldo, o filho do marchante, seu Gracindo.
- Eu sei! Eu sei! Sua baleia gorda! Gritou Ferreira.
- Baleia gorda é você, cara de coruja! Você parece uma tapioca, seu filho da peste!
- Filho da peste é você! Psiu! Silêncio! Seu pai vem aí! Disse o menino Ferreira. Os dois meninos que conversavam na baixada perto do riacho que cruza a estrada de acesso a Riachão se abaixaram atrás da moita de capim. E vêem as botas do homem que passava por eles. Nem um dos dois viu o rosto do cidadão.
- Quem era? Perguntou Everaldo.
- Num sei. Disse Ferreira.
- Eu vi as botas e elas estavam sujas de lama. Num sei, não. Continuou o menino. O ônibus passa por um buraco no povoado Saquinho. Com a trepidação do veículo, Ferreira acorda do seu sono. Passa a mão na baba que caía pelo canto direito de sua boca e ver que o carro estava muito atrasado. “Puxa, ainda estamos aqui?” “Deve ser meu relógio”. O homem nem se deu conta que o sol estava começando a enfraquecer. O carro pára novamente e a mulher com o tabuleiro de acarajé desce em Tanque Novo.
- Espera aí, rapaz, deixa eu pegar aqui minha sacola de feijão! Disse a mulher irritada.
A mulher se ajeitou para descer carregando além de sua barriga, o tabuleiro de acarajé. Com certo esforço a pobre senhora desce do ônibus e encontra-se com parentes no beiço da rodagem. Ferreira retorna a posição de antes e pega no sono dizendo para si: “Desta vez quando eu acordar, estarei em Riachão”.
- Ferreira, vá comprar pão!
- Vou não, mãe, vou não! Mande Rubens!
- Menino, você sabe que Rubensvaldo está estudando, não pode ser atrapalhado, vá você, Ferreira! Pelo amor de Deus, seu danado! Ferreira foi comprar os pães. Depois aguardou sua mãe chamá-lo para o jantar.
- Mãe, onde está pai? Perguntou Rubensvaldo.
- Num sei. Ele foi para a malhada e até agora nada.
- Ele deve estar tomando umas pingas antes de voltar para casa. Disse Rubensvaldo esclarecendo as coisas. Ferreira e seu irmão mais velho não se comunicavam bem, a diferença de idade não deixava. Ferreira via o mundo pelo buraco da fechadura. E Rubensvaldo pelos livros de filosofia do curso de Direito. Os dois foram vencidos pelo sono e foram deitar.
- Seu Ferreira! Incomodei-te?
- Não, absolutamente, não. Eu não sabia que estava na viajem. Respondeu Ferreira.
- Rapaz, eu estou precisando muito que você me tire uma dúvida. Disse o senhor de cabelos crespos ruivos e barba curta com um bigode fino no rodapé.
- Pois não. Continuou Ferreira.
- Tem um bode em sua terra que o povo adora. Não é?
- Sim. É o bode Bito.
- Por quê? Como isso aconteceu?
- Rapaz, o bode, sem para que, começou a acompanhar os enterros, por esta causa, as famílias de Riachão passaram a ter o bode como um parente.
- Que coisa esquisita? Mas existe algum motivo que explique isso?
- Levaram o bode para vários psicanalistas e psicólogos e nada. Dizem que pode ter sido apenas resposta mecânica do animal. Algumas vezes quiseram levar o bicho para rituais de magia negra por acharem que o pobre estivesse emacumbado. Enquanto a conversa continua, a viajem segue seu destino. O homem levantou-se e retornou para o seu lugar. Ferreira nem viu que ele usava botas meladas de lama.
- Ferreira, levante e vá para o grupo! O rapaz achou a voz de sua mãe um pouco rouca e pergunta:
- Mãe, por que você está rouca? Por que seus olhos estão inchados? A bisneta de holandesa não se entregava nunca.
- Deixa de frescura moço, levante e vá estudar! Vamos, deixa de moleza! Ferreira levantou-se de sua caminha e foi tomar café, logo em seguida foi para a escola.
Todos estavam descansando no ônibus quando se ouviu um barulho de ferro batendo no outro. O ônibus quebrou o câmbio bem perto da ladeira a um quilometro de Riachão. “Agora não!” “Será que hoje não tem dominó?” Mesmo tão perto da cidade, o homem resolveu esperar o conserto. Pegou novamente no sono.
- Oh, Bito! Oh, Bito! Vá buscar meu pai! Dizia o menino Ferreira subindo a sinistra ladeira do cemitério. O bode continuava na rodoviária e pelo posto de gasolina como era seu costume, nem dava atenção ao moleque. Aquela fora uma manhã muito triste para o jovem Ferreira. Por volta das treze horas saiu a notícia que seu pai, Francisco, havia sido encontrado morto e ninguém sabia a causa da morte. O homem foi levado para o necrotério em Aracaju para perícia. Dona Franquislane chorou amargamente a morte de seu marido. Desde então, lhe caiu o semblante. Até hoje Ferreira vai a Riachão para ver sua pobre velha e jogar dominó. A coitada ainda evita falar sobre o assunto.
- Se não fosse o bode, num sei o que seria de mim! Como assim Franquislane? Perguntou Gorete sua amiga.
- A inocência do animal, e como ele se aproximou de todos aqui. Mulher como é que esse bode sabe que Francisco morreu?
- Num sei mulher, será isso coisa ruim, não?
- Bem Gorete depois que Bito chegou o povo todo se aquietou. Encerrou a conversa sobre o bode, dona Franquislane. De fato o bode havia chegado e logo procurou um canto e ficou em sentinela até o raiar do dia. O caixão de seu Francisco chegou às oito da noite. A lua estava alta e todos da cidade foram curiosos ver Francisco morto. Não se sabe se foi cobra ou o vento. O caixão fora aberto, e não havia marcas no corpo. O homem estava perfeito.
- Mulher, que homem bom! Seu Francisco, partindo tão cedo! Comentou dona Tereza da mercearia.
- Pois num foi comadre, seu Francisco! Coitada de Franquislane. Acrescentou dona Maria.
- Que nada mulher, o homem deixou Franquislane em uma boa. Soube que o homem tinha dinheiro guardado. Mulher respeite o defunto!
Franquislane havia posto os meninos para dormir. Seu intuito era não deixá-los ver o pai morto. Mas menino é menino. Da cama de Ferreira podia-se avistar seu Francisco morto no caixão. Via-se sua boca e a silhueta de sua face. O caixão não era o melhor, mas, um belo caixão. Ferreira olha seu pai morto gretando por entre as cobertas. A visão de seu pai o deixou com medo. O menino entrou em estado de choque. O rapaz tremia na cama como vara verde e ninguém percebeu nada. Naquela situação o menino pega no sono. Ele sonhava com seu pai vivo e que ele corria por um campo muito bonito e limpo. Não havia espinhos ou pedras. A alma do rapaz, finalmente, descansa junto com seu pai. Mas sem razão alguma, a figura paterna se transforma em um monstro com três cabeças. Seus dentes eram tão afiados que quebravam barras de ferro. Ferreira acorda assustado e suado. As pessoas estavam se preparando para a procissão fúnebre. O bode ia à frente chefiando o cortejo, logo atrás, o caixão e os parentes chorando em grupo. O desconsolo era geral. O cortejo sai da casa de dona Franquislane que ficava no pé da ladeira da matriz e passa na Igreja. Ali, estava o padre Paulino, um bom rapaz, que sentiu o chamado do Senhor ainda muito moço. Ele reunia seus colegas debaixo dos pés de manga para brincarem de rezar missas quando era menino da idade de Ferreira. Logo depois foi para Recife estudar teologia, e voltou padre. O bode passa a porta principal da igreja, em seguida, o caixão entra e pára diante do homem de Deus. O padre dá as últimas graças a Francisco e o cortejo desce a ladeira até a estrada do cemitério que ficava em outra ladeira que dava para a estrada de Lagarto. O povo vai se arrumando até que o bode entra no campo santo. Enterraram Francisco, e o bode berrou descendo a ladeira rumo ao posto de gasolina.
- Ferreira! Ferreira! Chamou o motorista.
- Ferreira! Ferreira! Chamou o trocador.
- Ferreira!!! Gritou o motorista.
- Ferreira!!!! Gritou mais forte ainda o trocador.
Nunca se sabe quando a morte vai chegar. Ou onde vamos chegar com ela. No enterro de Ferreira não teve bode Bito. Foram poucos amigos. A maioria era do dominó. A velha Franquislane ficou muito triste com a morte de seu filho caçula. Mas depois com o tempo se consolou com Rubensvaldo. O Dr. Rubensvaldo. Ferreira morreu de infarto num sábado pouco tempo depois que o bode Bito batera as botas, ou melhor, as patas, bem próximo a malhada onde morrera seu pai.
Era sábado e Ferreira estava na rodoviária de Tobias Barreto para fazer o que sempre fez aos sábados durante estes últimos 30 anos. Ferreira trabalhava para o Deso e morava em Tobias há trinta anos. Casou com uma moça da terra e nela ficou; fez filhos, criou-os e nunca deixou de jogar dominó em Riachão, sua terra de origem. De Riachão o rapaz nunca se esqueceu. Riachão é uma cidade pequena no centro do sul do estado de Sergipe Del Rei na divisa com a Vila de Campos. A torrezinha da Matriz se avista de longe quando nos aproximamos da pequena cidade da família Dantas. Não sei muito falar desse povo, mas, dizem os antigos, que foi gente muito grande nessas terras de abacaxi doce e bom. Ferreira comprou sua passagem e entrou no ônibus. Este vinha da Bahia às duas da tarde. Era o que fazia a linha Tobias/Aracaju às duas e quinze. O ônibus só atrasava quando a estrada de Itapicurú estava ruim, caso contrário, era muito pontual. Ferreira ao entrar nem percebeu que o carro estava quase vazio, havia poucos passageiros. O costume era nem achar vagas, os carros ficam em menor quantidade no sábado. Um senhor de cabelos grisalhos, pele branca escandinava, olhos azuis e feições nórdicas senta no banco, abre a janela e observa o movimento no Terminal Rodoviário da antiga Vila de Campos. Naquela época a rodoviária situava-se próximo a ponte que divide os dois estados, Sergipe e Bahia. As pessoas colocavam caixas no ônibus, outros conversavam coisas triviais, e assim a cena corria como se tudo que vemos fosse verdade. Tudo estava no seu lugar. E Ferreira também. O rapaz de Riachão pegou no sono esperando o carro sair. Quando o ônibus inicia seu movimento de manobra para sair do terminal Ferreira acorda e volta sua atenção para as pessoas que estão no curso do ônibus, nas calçadas, em frente às lojas. O mundo parece muito normal. Sua pequena viajem rotineira havia iniciado. O interior do veículo fora tomado por um silêncio não habitual. Ferreira olhou as poltronas até onde a vista deu para ver, a quantidade de pessoas era muito pouca. Pensou consigo: “Milagre, pelo menos durmo uns vinte minutos antes de chegar a Riachão”. Fechou os olhos e dormiu. Mas desta feita seu sono foi muito rápido, pois o carro parou no posto de gasolina na saída da cidade para entrar uma senhora com um tabuleiro de acarajé. A moça põe as coisas com a ajuda do cobrador e a viajem reinicia rumo a Aracaju, e no caso do nosso Ferreira, a Riachão. Todos estavam sentados, a estrada estava boa. O dia estava claro. E ferreira estava cochilando com a cabeça encostada do lado direito do carro, o lado que à tarde faz sombra.
- Meninos venham para casa! Gritou dona Franquislane. As crianças correram para dentro de casa, e Franquislane fechou à porteira; era a hora do almoço.
- Meninos, lavaram as mãos?
- Não, mãe, não! Gritaram de volta a meninada.
- Então corram e lavem-se, é mal feito comer com as mãos sujas. A turma toda foi e voltou em um raio. Em cinco minutos todos rezavam a Ave-Maria com a senhora de 45 anos chamada Franquislane. Esta era uma mulher maravilhosa. Bisneta de holandeses que vieram para Sergipe; Franquislane tinha muito para ensinar a seus filhos sobre como viver a vida na prudência dos sábios. Dona Franquislane era da Igreja Luterana, como esta não tinha em Riachão, ela freqüentava a Igreja Católica.
- Agradeçam a Deus pelo pão e comam! Disse Franquislane.
O ônibus parou perto do “pau preto” para um homem entrar. Era um senhor de chapéu preto com a aba um tanto torta na frente. O homem tinha a cara fechada e não saldou a ninguém; ele entrou e sentou sumindo em sua poltrona. O motorista acelera e acorda novamente a Ferreira. Este abre os olhos e avista a Serra da Praça do seu lado direito. “Belos dias de infância”. Pensou consigo o jogador de dominó. Ele olhou para seu relógio e percebe que havia se passado mais de uma hora e nada de Riachão. Ele não havia chegado se quer ao entroncamento do Campestre. “O que foi, será que o relógio está parado ou algum problema, quebrou?” Pensou Ferreira. Olhou para o chão, coçou a testa, encostou a cabeça na poltrona, e se entregou novamente aos cuidados do motorista baiano que iria cruzar Sergipe de sul a norte. A viajem prosseguiu pelas estradas de Campos de Nossa Senhora Imperatriz.
- Você não sabe montar Ferreira? Nem sabe! Disse Everaldo, o filho do marchante, seu Gracindo.
- Eu sei! Eu sei! Sua baleia gorda! Gritou Ferreira.
- Baleia gorda é você, cara de coruja! Você parece uma tapioca, seu filho da peste!
- Filho da peste é você! Psiu! Silêncio! Seu pai vem aí! Disse o menino Ferreira. Os dois meninos que conversavam na baixada perto do riacho que cruza a estrada de acesso a Riachão se abaixaram atrás da moita de capim. E vêem as botas do homem que passava por eles. Nem um dos dois viu o rosto do cidadão.
- Quem era? Perguntou Everaldo.
- Num sei. Disse Ferreira.
- Eu vi as botas e elas estavam sujas de lama. Num sei, não. Continuou o menino. O ônibus passa por um buraco no povoado Saquinho. Com a trepidação do veículo, Ferreira acorda do seu sono. Passa a mão na baba que caía pelo canto direito de sua boca e ver que o carro estava muito atrasado. “Puxa, ainda estamos aqui?” “Deve ser meu relógio”. O homem nem se deu conta que o sol estava começando a enfraquecer. O carro pára novamente e a mulher com o tabuleiro de acarajé desce em Tanque Novo.
- Espera aí, rapaz, deixa eu pegar aqui minha sacola de feijão! Disse a mulher irritada.
A mulher se ajeitou para descer carregando além de sua barriga, o tabuleiro de acarajé. Com certo esforço a pobre senhora desce do ônibus e encontra-se com parentes no beiço da rodagem. Ferreira retorna a posição de antes e pega no sono dizendo para si: “Desta vez quando eu acordar, estarei em Riachão”.
- Ferreira, vá comprar pão!
- Vou não, mãe, vou não! Mande Rubens!
- Menino, você sabe que Rubensvaldo está estudando, não pode ser atrapalhado, vá você, Ferreira! Pelo amor de Deus, seu danado! Ferreira foi comprar os pães. Depois aguardou sua mãe chamá-lo para o jantar.
- Mãe, onde está pai? Perguntou Rubensvaldo.
- Num sei. Ele foi para a malhada e até agora nada.
- Ele deve estar tomando umas pingas antes de voltar para casa. Disse Rubensvaldo esclarecendo as coisas. Ferreira e seu irmão mais velho não se comunicavam bem, a diferença de idade não deixava. Ferreira via o mundo pelo buraco da fechadura. E Rubensvaldo pelos livros de filosofia do curso de Direito. Os dois foram vencidos pelo sono e foram deitar.
- Seu Ferreira! Incomodei-te?
- Não, absolutamente, não. Eu não sabia que estava na viajem. Respondeu Ferreira.
- Rapaz, eu estou precisando muito que você me tire uma dúvida. Disse o senhor de cabelos crespos ruivos e barba curta com um bigode fino no rodapé.
- Pois não. Continuou Ferreira.
- Tem um bode em sua terra que o povo adora. Não é?
- Sim. É o bode Bito.
- Por quê? Como isso aconteceu?
- Rapaz, o bode, sem para que, começou a acompanhar os enterros, por esta causa, as famílias de Riachão passaram a ter o bode como um parente.
- Que coisa esquisita? Mas existe algum motivo que explique isso?
- Levaram o bode para vários psicanalistas e psicólogos e nada. Dizem que pode ter sido apenas resposta mecânica do animal. Algumas vezes quiseram levar o bicho para rituais de magia negra por acharem que o pobre estivesse emacumbado. Enquanto a conversa continua, a viajem segue seu destino. O homem levantou-se e retornou para o seu lugar. Ferreira nem viu que ele usava botas meladas de lama.
- Ferreira, levante e vá para o grupo! O rapaz achou a voz de sua mãe um pouco rouca e pergunta:
- Mãe, por que você está rouca? Por que seus olhos estão inchados? A bisneta de holandesa não se entregava nunca.
- Deixa de frescura moço, levante e vá estudar! Vamos, deixa de moleza! Ferreira levantou-se de sua caminha e foi tomar café, logo em seguida foi para a escola.
Todos estavam descansando no ônibus quando se ouviu um barulho de ferro batendo no outro. O ônibus quebrou o câmbio bem perto da ladeira a um quilometro de Riachão. “Agora não!” “Será que hoje não tem dominó?” Mesmo tão perto da cidade, o homem resolveu esperar o conserto. Pegou novamente no sono.
- Oh, Bito! Oh, Bito! Vá buscar meu pai! Dizia o menino Ferreira subindo a sinistra ladeira do cemitério. O bode continuava na rodoviária e pelo posto de gasolina como era seu costume, nem dava atenção ao moleque. Aquela fora uma manhã muito triste para o jovem Ferreira. Por volta das treze horas saiu a notícia que seu pai, Francisco, havia sido encontrado morto e ninguém sabia a causa da morte. O homem foi levado para o necrotério em Aracaju para perícia. Dona Franquislane chorou amargamente a morte de seu marido. Desde então, lhe caiu o semblante. Até hoje Ferreira vai a Riachão para ver sua pobre velha e jogar dominó. A coitada ainda evita falar sobre o assunto.
- Se não fosse o bode, num sei o que seria de mim! Como assim Franquislane? Perguntou Gorete sua amiga.
- A inocência do animal, e como ele se aproximou de todos aqui. Mulher como é que esse bode sabe que Francisco morreu?
- Num sei mulher, será isso coisa ruim, não?
- Bem Gorete depois que Bito chegou o povo todo se aquietou. Encerrou a conversa sobre o bode, dona Franquislane. De fato o bode havia chegado e logo procurou um canto e ficou em sentinela até o raiar do dia. O caixão de seu Francisco chegou às oito da noite. A lua estava alta e todos da cidade foram curiosos ver Francisco morto. Não se sabe se foi cobra ou o vento. O caixão fora aberto, e não havia marcas no corpo. O homem estava perfeito.
- Mulher, que homem bom! Seu Francisco, partindo tão cedo! Comentou dona Tereza da mercearia.
- Pois num foi comadre, seu Francisco! Coitada de Franquislane. Acrescentou dona Maria.
- Que nada mulher, o homem deixou Franquislane em uma boa. Soube que o homem tinha dinheiro guardado. Mulher respeite o defunto!
Franquislane havia posto os meninos para dormir. Seu intuito era não deixá-los ver o pai morto. Mas menino é menino. Da cama de Ferreira podia-se avistar seu Francisco morto no caixão. Via-se sua boca e a silhueta de sua face. O caixão não era o melhor, mas, um belo caixão. Ferreira olha seu pai morto gretando por entre as cobertas. A visão de seu pai o deixou com medo. O menino entrou em estado de choque. O rapaz tremia na cama como vara verde e ninguém percebeu nada. Naquela situação o menino pega no sono. Ele sonhava com seu pai vivo e que ele corria por um campo muito bonito e limpo. Não havia espinhos ou pedras. A alma do rapaz, finalmente, descansa junto com seu pai. Mas sem razão alguma, a figura paterna se transforma em um monstro com três cabeças. Seus dentes eram tão afiados que quebravam barras de ferro. Ferreira acorda assustado e suado. As pessoas estavam se preparando para a procissão fúnebre. O bode ia à frente chefiando o cortejo, logo atrás, o caixão e os parentes chorando em grupo. O desconsolo era geral. O cortejo sai da casa de dona Franquislane que ficava no pé da ladeira da matriz e passa na Igreja. Ali, estava o padre Paulino, um bom rapaz, que sentiu o chamado do Senhor ainda muito moço. Ele reunia seus colegas debaixo dos pés de manga para brincarem de rezar missas quando era menino da idade de Ferreira. Logo depois foi para Recife estudar teologia, e voltou padre. O bode passa a porta principal da igreja, em seguida, o caixão entra e pára diante do homem de Deus. O padre dá as últimas graças a Francisco e o cortejo desce a ladeira até a estrada do cemitério que ficava em outra ladeira que dava para a estrada de Lagarto. O povo vai se arrumando até que o bode entra no campo santo. Enterraram Francisco, e o bode berrou descendo a ladeira rumo ao posto de gasolina.
- Ferreira! Ferreira! Chamou o motorista.
- Ferreira! Ferreira! Chamou o trocador.
- Ferreira!!! Gritou o motorista.
- Ferreira!!!! Gritou mais forte ainda o trocador.
Nunca se sabe quando a morte vai chegar. Ou onde vamos chegar com ela. No enterro de Ferreira não teve bode Bito. Foram poucos amigos. A maioria era do dominó. A velha Franquislane ficou muito triste com a morte de seu filho caçula. Mas depois com o tempo se consolou com Rubensvaldo. O Dr. Rubensvaldo. Ferreira morreu de infarto num sábado pouco tempo depois que o bode Bito batera as botas, ou melhor, as patas, bem próximo a malhada onde morrera seu pai.
quinta-feira, 24 de março de 2011
A importância da musica brega nas aulas de redação
A importância do uso da musica brega nas aulas de redação
As aulas de redação muitas vezes são atos mecânicos que seguem regras ou técnicas de produção textual deixando para trás uma quantidade enorme de outros sentidos que a produção textual pode apresentar. O aluno é iniciado no ato de escrever por meio de um termo sem sentido para seu mundo. Ou, embora, tendo algum sentido não oferece ligação psíquica e histórica cultural com ele. Uma palavra não pode ser vazia de sentido. Por esta causa é muito aconselhável que as pessoas aprendam a escrever textos usando termos comuns ao seu cotidiano para depois dar um salto lingüístico bem maior. Reconhecer o valor pedagógico dos textos bregas nas aulas de redação não é apenas um olhar crítico, mas, uma ação inteligente por parte do educador.
A teoria de Paulo Freire entende que os homens diferentes dos animais se relacionam com a realidade de forma consciente. O nível de consciência é variável, mas, ter consciência de seu mundo, na visão de Freire, é possível. A educação é uma forma de despertar consciências. A pedagogia de Freire é uma pedagogia libertadora de mentes, pois, ele entende que isso é possível por meio da educação.
Reconhecer as situações limites que envolvem os homens é um passo muito importante para o educador em todos os níveis do processo. Sem esse conhecimento é difícil trabalhar a educação em sala de aula. Para Freire, professor e aluno constroem seu universo de conteúdos. A situação limite diz para as pessoas de seu mundo, de sua realidade. Existem situações no mundo dos homens que é preciso uma repensada. Todos os homens têm situações limites. O fato de não vê-las, no pensar de Freire, é uma situação limite. Ver as situações limites dos alunos inseridos em um lócus geográfico determinado é poder dialogar com o aluno e a comunidade no mesmo idioma.
A situação limite uma vez posta pelos envolvidos no processo de aprender e apreender o real se torna objeto de questionamentos e diálogos. A situação limite então não deve ser sugerida pelo educador, sua descoberta é criação do grupo. O dialogo provocado pela situação limite em apreço pelas pessoas, provoca a discussão de outros temas relacionados a ela. Os temas geradores são geradores de temas que servirão de objetos de discussão e diálogos. O importante aqui é que, esses temas nos remetem a realidade dos educandos e dos seus parentes, ou seja, de sua comunidade.
A musica brega é importante ferramenta nas aulas de redação por causa de sua textualidade um tanto popular. Além do mais, o estilo brega reflete a realidade de muitos de nossos educando, portanto, tem tudo a ver com seus mundos e situações limites. A pedagogia que usa o brega na produção textual faz uso de material muito rico que expressa formas lingüísticas simples e complexas oferecendo ao educador um léxico muito rico para apresentar aos seus alunos. Se considerarmos que o aprender a escrever é um ato artificial e que a escrita é uma reprodução reduzida da fala, então, podemos ver no texto brega um bom começo para o que Freire chama de letramento. Este processo gradual e acumulativo parte de unidades mais simples para unidades mais complexas. O mesmo princípio se aplica a construção de sintagmas; partindo do simples para o mais complexo o aluno vai aprendendo a tecer o texto e plasmar seu pensamento. Ademais, a produção textual brega instiga o aluno ao diálogo, por que o educando já possui uma vivência psíquica com aqueles signos e códigos postos pela musicalidade brega.
Acho muito importante um estudo mais apurado sobre o papel do texto brega na produção textual de alunos do ensino médio. Apriore, posso dizer que estas são as razões que me fazem pensar da importância do texto brega na produção de texto. Em outros textos pretendo colocar mais lenha na fogueira da discussão.
As aulas de redação muitas vezes são atos mecânicos que seguem regras ou técnicas de produção textual deixando para trás uma quantidade enorme de outros sentidos que a produção textual pode apresentar. O aluno é iniciado no ato de escrever por meio de um termo sem sentido para seu mundo. Ou, embora, tendo algum sentido não oferece ligação psíquica e histórica cultural com ele. Uma palavra não pode ser vazia de sentido. Por esta causa é muito aconselhável que as pessoas aprendam a escrever textos usando termos comuns ao seu cotidiano para depois dar um salto lingüístico bem maior. Reconhecer o valor pedagógico dos textos bregas nas aulas de redação não é apenas um olhar crítico, mas, uma ação inteligente por parte do educador.
A teoria de Paulo Freire entende que os homens diferentes dos animais se relacionam com a realidade de forma consciente. O nível de consciência é variável, mas, ter consciência de seu mundo, na visão de Freire, é possível. A educação é uma forma de despertar consciências. A pedagogia de Freire é uma pedagogia libertadora de mentes, pois, ele entende que isso é possível por meio da educação.
Reconhecer as situações limites que envolvem os homens é um passo muito importante para o educador em todos os níveis do processo. Sem esse conhecimento é difícil trabalhar a educação em sala de aula. Para Freire, professor e aluno constroem seu universo de conteúdos. A situação limite diz para as pessoas de seu mundo, de sua realidade. Existem situações no mundo dos homens que é preciso uma repensada. Todos os homens têm situações limites. O fato de não vê-las, no pensar de Freire, é uma situação limite. Ver as situações limites dos alunos inseridos em um lócus geográfico determinado é poder dialogar com o aluno e a comunidade no mesmo idioma.
A situação limite uma vez posta pelos envolvidos no processo de aprender e apreender o real se torna objeto de questionamentos e diálogos. A situação limite então não deve ser sugerida pelo educador, sua descoberta é criação do grupo. O dialogo provocado pela situação limite em apreço pelas pessoas, provoca a discussão de outros temas relacionados a ela. Os temas geradores são geradores de temas que servirão de objetos de discussão e diálogos. O importante aqui é que, esses temas nos remetem a realidade dos educandos e dos seus parentes, ou seja, de sua comunidade.
A musica brega é importante ferramenta nas aulas de redação por causa de sua textualidade um tanto popular. Além do mais, o estilo brega reflete a realidade de muitos de nossos educando, portanto, tem tudo a ver com seus mundos e situações limites. A pedagogia que usa o brega na produção textual faz uso de material muito rico que expressa formas lingüísticas simples e complexas oferecendo ao educador um léxico muito rico para apresentar aos seus alunos. Se considerarmos que o aprender a escrever é um ato artificial e que a escrita é uma reprodução reduzida da fala, então, podemos ver no texto brega um bom começo para o que Freire chama de letramento. Este processo gradual e acumulativo parte de unidades mais simples para unidades mais complexas. O mesmo princípio se aplica a construção de sintagmas; partindo do simples para o mais complexo o aluno vai aprendendo a tecer o texto e plasmar seu pensamento. Ademais, a produção textual brega instiga o aluno ao diálogo, por que o educando já possui uma vivência psíquica com aqueles signos e códigos postos pela musicalidade brega.
Acho muito importante um estudo mais apurado sobre o papel do texto brega na produção textual de alunos do ensino médio. Apriore, posso dizer que estas são as razões que me fazem pensar da importância do texto brega na produção de texto. Em outros textos pretendo colocar mais lenha na fogueira da discussão.
terça-feira, 8 de março de 2011
A Pedagogia Problematizadora de Paulo Freire e a Musica Brega
A Pedagogia Problematizadora de Paulo Freire e a Musica Brega
INTRODUÇÃO
O presente texto não objetiva esgotar a discussão do uso da música brega nas escolas públicas do Brasil. Ele apenas reflete um insight do autor sobre o tema que será discutido em outros artigos. O texto que segue trabalha o olhar freireano de educação e sugere o uso da música brega como recurso didático em nossas escolas. O texto ainda reconhece que a resistência a esse idéia é previsível, mas, vê no educador comprometido com a educação libertadora uma porta a aberta para o diálogo.
O estudo e a vivência em sala de aula, ao longo de quase trinta anos, me tornaram testemunha viva dos meandros da Educação em Sergipe. Hoje, estou em um pequeno povoado do interior do estado, e leciono para crianças da terceira série do ensino fundamental menor. Percebo que eles têm muita dificuldade para entender os conteúdos ofertados pelo livro didático, e até mesmo, o meu discurso. Fica claro aos meus olhos, que o que foi posto por Freire na Pedagogia do Oprimido se aplica a esse problema. Da mesma forma que precisei adequar meu discurso ao mundo daqueles pequeninos, o livro didático, sua linguagem e conteúdos deveriam também ser revisados e modelados à realidade daquela pequena comunidade de camponeses brasileiros.
“Simplesmente, não podemos chegar aos operários, urbanos ou camponeses, estes, de modo geral, imersos num contexto colonial, quase umbilicalmente ligados ao mundo da natureza de que sentem mais partes que transformadores, para, à maneira da concepção “bancária”, entregar-lhes “conhecimento”ou impor-lhes um modelo de homem bom, contido no programa cujo conteúdo nós mesmos organizamos”. (FREIRE, 1983, pg. 99)
O que salta à minha mente, ao observar essa realidade, é que nossas instituições permanecem insensíveis aos clamores feitos pelo grande educador brasileiro. A educação bancária sobrevive apesar de tantas críticas e reflexões feitas em todo o território brasileiro. As teorias que colocam a educação problematizadora, dialogista e libertadora, não foram postas em prática de forma efetiva, e parece que levaremos alguns anos para que isso acorra.
“Quem atua sobre os homens para, endoutrinando-os, adaptá-los cada vez mais à realidade que deve permanecer intocada, são os dominadores”. (FREIRE, 1983, Pg. 99)
Inevitavelmente, entendemos que a dominação em sala de aula continua tanto na abordagem docente quanto nas políticas e ações do governo. A presença da dominação no olhar freireano ocorre por que os dominadores insistem no modelo bancário de educação, uma vez, que este atende aos interesses das elites. A dominação em sala de aula ocorre de forma muito sutil. Às vezes, o próprio docente não percebe que ele é agente e vítima no processo. A dominação se materializa de diversas formas, até mesmo, nos valores estéticos presentes nos livros ou nas discussões em sala de aula, ou na grade curricular que obriga o professor a trabalhar determinados temas que não são temas geradores de problemáticas como pôs Freire em sua pedagogia libertadora.
O que devemos fazer, na verdade, é propor ao povo, através de certas contradições básicas, sua situação existencial, concreta, presente, como problema que, por sua vez, o desafia e, assim, lhe exige resposta, não só no nível intelectual, mas no nível da ação. (FREIRE, 1983, Pg 99)
Uma das formas que vi como válida para aproximar-me dos alunos foi a música. Esta, como todos sabem, pois, é do conhecimento público, atinge as pessoas de forma contundente. A música encanta as pessoas e as faz imaginar seu mundo. A música como, alguém já disse, é uma forma de aproximar as pessoas das outras e de seu mundo. O gosto musical até certo ponto identifica as pessoas com seu lócus existencial. Música e existência andam de forma muito próxima. Por isso, entendo que o uso da música brega muito se identifica com os postulados que inspiram a prática freireana de educação. Primeiro por que sua problemática, também, contempla a realidade daqueles que estão esquecidos nos sertões desse país. Segundo por que é uma música que possui uma textualidade fácil e possível de ser trabalhada em sala de aula com pessoas em fase de desenvolvimento da escrita ou aquelas que mesmo a possuindo, continuam necessitando de encontrar-se em seu mundo concreto. Terceiro por que ela evoca o imaginário daquelas pessoas, e isso quebra gigantescas barreiras para o educador que, de fato, deseja dialogar com o aluno na sua língua, em seu mundo, e discutir com ele seus problemas. A resistência ao uso do brega na escola é evidente. Contudo, se os professores abrissem os olhos para esse recurso didático, ou, se os responsáveis pelos livros didáticos incluíssem esse gênero musical, facilitaria bastante o aprendizado de nossas crianças. Nada melhor do que uma escola nossa! Aquele que vive a realidade de Raimundo, o leiteiro, ou de Joaquim, o carroceiro.
Por isto mesmo é que, muitas vezes, educadores e políticos falam e não são entendidos. Sua linguagem não sintoniza com a situação concreta dos homens a quem falam. E sua fala é um discurso a mais, alienado e alienante. (FREIRE, 1983, Pg.102)
Não quero dizer com isso que a escola deva reproduzir o discurso de determinado lócus. Pelo contrário, a proposta dialógica de Freire entende que devemos nos aproximar do educando para com isso podermos conduzi-lo à língua do dominador. O diálogo para o educador brasileiro é um diálogo de conflito, de contestação, de desvelamento das contradições com o objetivo de alcançarmos via educação a libertação de ambas as partes: O que oprime e o que é oprimido
INTRODUÇÃO
O presente texto não objetiva esgotar a discussão do uso da música brega nas escolas públicas do Brasil. Ele apenas reflete um insight do autor sobre o tema que será discutido em outros artigos. O texto que segue trabalha o olhar freireano de educação e sugere o uso da música brega como recurso didático em nossas escolas. O texto ainda reconhece que a resistência a esse idéia é previsível, mas, vê no educador comprometido com a educação libertadora uma porta a aberta para o diálogo.
O estudo e a vivência em sala de aula, ao longo de quase trinta anos, me tornaram testemunha viva dos meandros da Educação em Sergipe. Hoje, estou em um pequeno povoado do interior do estado, e leciono para crianças da terceira série do ensino fundamental menor. Percebo que eles têm muita dificuldade para entender os conteúdos ofertados pelo livro didático, e até mesmo, o meu discurso. Fica claro aos meus olhos, que o que foi posto por Freire na Pedagogia do Oprimido se aplica a esse problema. Da mesma forma que precisei adequar meu discurso ao mundo daqueles pequeninos, o livro didático, sua linguagem e conteúdos deveriam também ser revisados e modelados à realidade daquela pequena comunidade de camponeses brasileiros.
“Simplesmente, não podemos chegar aos operários, urbanos ou camponeses, estes, de modo geral, imersos num contexto colonial, quase umbilicalmente ligados ao mundo da natureza de que sentem mais partes que transformadores, para, à maneira da concepção “bancária”, entregar-lhes “conhecimento”ou impor-lhes um modelo de homem bom, contido no programa cujo conteúdo nós mesmos organizamos”. (FREIRE, 1983, pg. 99)
O que salta à minha mente, ao observar essa realidade, é que nossas instituições permanecem insensíveis aos clamores feitos pelo grande educador brasileiro. A educação bancária sobrevive apesar de tantas críticas e reflexões feitas em todo o território brasileiro. As teorias que colocam a educação problematizadora, dialogista e libertadora, não foram postas em prática de forma efetiva, e parece que levaremos alguns anos para que isso acorra.
“Quem atua sobre os homens para, endoutrinando-os, adaptá-los cada vez mais à realidade que deve permanecer intocada, são os dominadores”. (FREIRE, 1983, Pg. 99)
Inevitavelmente, entendemos que a dominação em sala de aula continua tanto na abordagem docente quanto nas políticas e ações do governo. A presença da dominação no olhar freireano ocorre por que os dominadores insistem no modelo bancário de educação, uma vez, que este atende aos interesses das elites. A dominação em sala de aula ocorre de forma muito sutil. Às vezes, o próprio docente não percebe que ele é agente e vítima no processo. A dominação se materializa de diversas formas, até mesmo, nos valores estéticos presentes nos livros ou nas discussões em sala de aula, ou na grade curricular que obriga o professor a trabalhar determinados temas que não são temas geradores de problemáticas como pôs Freire em sua pedagogia libertadora.
O que devemos fazer, na verdade, é propor ao povo, através de certas contradições básicas, sua situação existencial, concreta, presente, como problema que, por sua vez, o desafia e, assim, lhe exige resposta, não só no nível intelectual, mas no nível da ação. (FREIRE, 1983, Pg 99)
Uma das formas que vi como válida para aproximar-me dos alunos foi a música. Esta, como todos sabem, pois, é do conhecimento público, atinge as pessoas de forma contundente. A música encanta as pessoas e as faz imaginar seu mundo. A música como, alguém já disse, é uma forma de aproximar as pessoas das outras e de seu mundo. O gosto musical até certo ponto identifica as pessoas com seu lócus existencial. Música e existência andam de forma muito próxima. Por isso, entendo que o uso da música brega muito se identifica com os postulados que inspiram a prática freireana de educação. Primeiro por que sua problemática, também, contempla a realidade daqueles que estão esquecidos nos sertões desse país. Segundo por que é uma música que possui uma textualidade fácil e possível de ser trabalhada em sala de aula com pessoas em fase de desenvolvimento da escrita ou aquelas que mesmo a possuindo, continuam necessitando de encontrar-se em seu mundo concreto. Terceiro por que ela evoca o imaginário daquelas pessoas, e isso quebra gigantescas barreiras para o educador que, de fato, deseja dialogar com o aluno na sua língua, em seu mundo, e discutir com ele seus problemas. A resistência ao uso do brega na escola é evidente. Contudo, se os professores abrissem os olhos para esse recurso didático, ou, se os responsáveis pelos livros didáticos incluíssem esse gênero musical, facilitaria bastante o aprendizado de nossas crianças. Nada melhor do que uma escola nossa! Aquele que vive a realidade de Raimundo, o leiteiro, ou de Joaquim, o carroceiro.
Por isto mesmo é que, muitas vezes, educadores e políticos falam e não são entendidos. Sua linguagem não sintoniza com a situação concreta dos homens a quem falam. E sua fala é um discurso a mais, alienado e alienante. (FREIRE, 1983, Pg.102)
Não quero dizer com isso que a escola deva reproduzir o discurso de determinado lócus. Pelo contrário, a proposta dialógica de Freire entende que devemos nos aproximar do educando para com isso podermos conduzi-lo à língua do dominador. O diálogo para o educador brasileiro é um diálogo de conflito, de contestação, de desvelamento das contradições com o objetivo de alcançarmos via educação a libertação de ambas as partes: O que oprime e o que é oprimido
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